A dor foi a primeira coisa que fez Valentina despertar.
Uma dor funda, espalhada, impregnada no corpo inteiro, como se ela tivesse sido castigada por horas, como se ondas tivessem esmurrado seus ossos até perderem a força.
Os braços ardiam.
As pernas pesavam.
O peito doía num ritmo que parecia acompanhar o bip do monitor.
Ela abriu os olhos com dificuldade.
Teto branco.
Luz fria.
Lençóis de hospital.
O soro preso no braço esquerdo puxava sua pele a cada movimento leve.
A boca estava seca.
A cabeça latejava num pulso lento e brutal.
Valentina respirou fundo — e o ar veio frio demais, estranho demais.
Ela virou o rosto devagar, procurando alguma coisa familiar naquele quarto.
Mas não havia ninguém.
Nenhuma presença.
Nenhum barulho.
Nenhuma sombra do homem que a salvou.
O coração dela apertou num reflexo desesperado.
— Rafael…? — a voz saiu fraca, quase nada.
E o silêncio respondeu.
Ela fechou os olhos, tentando organizar pensamentos que vinham em flashes desconexos: mar, chuva, vento, medo, mãos fortes segurando o corpo dela antes que ela caísse…
Quando ela abriu os olhos de novo — a porta explodiu para dentro.
Literalmente explodiu.
— MEU DEUS DO CÉU, VAL… — Bianca entrou num rompante, sem ar, sem lógica, sem freio. — VOCÊ TÁ MALUCA?! EU TÔ MALUCA?! O MUNDO TÁ MALUCO?! EU TÔ… EU TÔ… — ela parou para respirar porque parecia ter subido vinte andares correndo. — CARALHO, MULHER!
Valentina piscou, assustada.
Bianca era um caos ambulante: o cabelo preso torto, casaco aberto, tênis sem meia, bolsa pela metade no ombro e os olhos arregalados de puro terror.
— B-Bianca…?
Bianca ergueu o dedo na cara dela, tremendo.
— Não fala. NÃO FALA! Minha alma acabou de voltar pro meu corpo e eu não sei se ela vai ficar! — ela apontou para o próprio peito, ofegante. — Eu tava DORMINDO. Dormindo, Valentina. Tranquila, inocente, besta. Aí meu celular toca. E quem é? Quem é?!
Valentina engoliu seco.
— Quem…?
— RAFAEL! — Bianca jogou as mãos para cima. — Rafael Montenegro às sete da manhã! Sete da manhã, Valentina! Você tem noção do susto?! EU QUASE MORRI, SUA DOIDA!
Valentina tentou se mexer, mas gemeu de dor.
Bianca travou.
O pânico virou preocupação tão rápido que até a respiração dela mudou.
— Val… — ela sussurrou, se aproximando devagar. — O que aconteceu? O Rafael só disse “ela está no hospital”… e desligou. Do jeito frio de ser, direto, seco, sem detalhes! Eu vim correndo! Eu vim correndo achando que você tinha… — a voz dela falhou. — Ai, meu Deus… eu achei que você tinha morrido…
Valentina fechou os olhos.
Quando abriu, lágrimas silenciosas escorriam pelas têmporas.
— Bia… — ela disse num fio de voz. — Eu… achei que ia morrer também.
Bianca arregalou os olhos.
— Como assim “morrer”?! — ela encostou as duas mãos na cama, inclinando-se. — O que aconteceu? Você tá machucada? Quem fez isso? Eu juro por tudo que é sagrado, se alguém encostou um dedo em você, eu vou atrás! — ela ofegou. — Quer dizer, talvez não vá sozinha porque eu tenho 1,60m e força de um pato, mas EU DOU UM JEITO.
Valentina soltou um riso fraco, dolorido.
Bianca então se endireitou, colocando as mãos na cintura — postura típica de "agora você vai falar".
— Me conta. — ela exigiu. — Tudo. Agora. Porque eu cheguei aqui sem saber PORRA NENHUMA! E olha a sua cara, Valentina! Olha isso! — ela apontou para o soro, para os arranhões, para o cabelo bagunçado.
Valentina respirou fundo — e finalmente encontrou força para responder:
— Bianca… eu fui enganada.
Bianca congelou.
— Como assim… enganada?
— Eu… eu fui parar no meio do mar.
Bianca abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
— NO MEIO DO QUÊ?!
Valentina continuou, a voz falhando:
— Ela me ofereceu chá. Disse que precisava me explicar. Eu… eu estava nervosa, ansiosa… eu tomei um gole. Um só.
Olhei para o mar, ouvi alguma coisa, senti o chão girar e… — ela passou a mão no rosto, respiração falhando. — E desmaiei. Antes de cair, ouvi a voz dela… dizendo que os tubarões iam me devorar inteira.
Bianca levou a mão à boca, horrorizada.
— Meu Deus, Val… ela tentou te matar.
Valentina desviou o olhar, as lágrimas finalmente escapando.
— Eu acordei no meio do mar… sozinha. A tempestade… o barco chacoalhando… não tinha ninguém. Bianca, eu… eu achei que ia morrer ali. — sua voz quebrou. — Eu não sei nadar. Eu só conseguia pensar que ia cair na água e sumir.
Bianca chorou junto.
— Meu Deus… Val… vem cá — ela a puxou para um abraço firme e cuidadoso, como se Valentina fosse feita de pedaços frágeis. — Eu tô aqui. Eu tô aqui.
Valentina encostou o rosto no ombro dela, respirando como se cada puxada de ar doesse por dentro.
— Bianca… — ela murmurou. — Quem me achou? Quem me trouxe pra cá? Foi a polícia? Foi a marinha? Quem estava me procurando?
Bianca afastou um pouco, enxugando o rosto.
— Eu… eu não sei. — confessou, sincera. — O Rafael me ligou hoje cedo. Ele só disse: “A Valentina está no hospital”. Eu juro, Val… eu não sei como ele te encontrou. Não sei quem tirou você daquele barco. Só sei que… quando eu cheguei, você já estava aqui.
Valentina piscou várias vezes, tentando processar.
— Então… ninguém te contou nada?
— Nada. — Bianca balançou a cabeça, desesperada. — Só sei que você quase morreu. Que alguém fez isso com você. E que se eu colocar as mãos nessa vaca da Isabella… — ela fechou os punhos. — Eu juro, Val… eu acabo com ela.
Valentina respirou fundo.
Devagar.
Pesado.
Como quem tenta voltar ao próprio corpo depois de uma noite no inferno.
— Bianca… — sua voz saiu baixinha. — Ela me deixou para morrer. Sem pensar duas vezes.
— Eu sei. — Bianca apertou as mãos dela com força. — Mas ela não conseguiu.
As duas ficaram ali, respirando juntas, chorando baixo, tentando juntar os pedaços de algo que tinha se partido muito fundo.
Sem saber…
Que do outro lado da cidade…
Alguém ouvia cada palavra.
E o gelo no peito dele estava virando fogo.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário