O mar não descansava.
Cada onda parecia maior que a anterior, cada impacto mais violento, cada segundo mais cruel. O barco era sacudido como brinquedo barato, rangendo, protestando, gritando em madeira aquilo que Valentina já não conseguia gritar em voz.
A tempestade agora era total.
A chuva caía em lâminas grossas, cortando o ar, batendo contra seu rosto como t***s gelados.
O vento empurrava o barco de lado, arrastava seu cabelo, entupia seus ouvidos.
O céu… o céu parecia estar desabando inteiro.
Valentina se agarrava ao que conseguia — corrimão, banco, canto, borda — mas nada ficava firme tempo suficiente.
Tudo escorregava.
Tudo fugia.
Tudo tremia.
Ela já não sabia há quanto tempo estava ali.
Minutos?
Horas?
Dias?
A dor no ombro queimava.
O frio devorava seus braços.
Os dedos estavam dormentes, roxos, quase sem força para segurar qualquer coisa.
— Por favor… por favor… — ela murmurou, mal reconhecendo a própria voz. — Eu não quero morrer… por favor…
O barco inclinou bruscamente para a direita.
Valentina escorregou, bateu a mão na madeira molhada, quase foi parar na beira do deque.
Um raio enorme rasgou o céu, iluminando o oceano como se o mundo fosse dividido ao meio.
E nesse clarão —
ela viu o tamanho da solidão.
A água era um monstro furioso em todas as direções.
Negra.
Profunda.
Infinita.
O barco era um ponto frágil, um fiapo, um erro de cálculo esperando ser engolido.
Valentina apertou os olhos, o coração batendo num ritmo torto.
Seu corpo estava perto do limite.
Seu peito ardia de tanto tentar respirar.
Seus braços tremiam, exaustos, queimando.
— Alguém… — ela sussurrou, com a voz arranhada pela fome de ar. — Por favor…
Ela não sabia se pedia ajuda.
Ou se apenas dizia o nome dele para não se sentir tão sozinha.
Outra onda enorme bateu no casco.
O barco subiu — e desceu com violência, fazendo o chão desaparecer por um segundo.
Valentina voou alguns centímetros e caiu com força no deque, o impacto arrancando o ar dos pulmões. Ela tossiu, engasgou com a água da chuva, tentou levantar — e caiu de novo, o corpo cedendo.
Ela rastejou até a lateral, agarrando o corrimão com as duas mãos trêmulas.
Se ela caísse no mar… acabava.
Acabava em segundos. E ninguém a encontraria.
As lágrimas escorriam misturadas com a chuva, quente contra o frio brutal da tempestade.
— Eu não sei nadar… — ela soluçou.
O barco virou de lado por um instante.
Um instante longo demais.
Ela gritou.
O vento tomou o grito dela, engoliu, arrancou, levou embora.
A escuridão parecia mais pesada.
Mais viva.
Mais cruel.
E então…
Algo mudou.
Primeiro foi um som.
Um som diferente do rugido do mar.
Um som que não pertencia à tempestade.
Um som grave, cortante, ritmado.
THUM-THUM-THUM-THUM.
Valentina ergueu a cabeça devagar, o coração disparando no peito.
O céu ainda estava preto.
A chuva ainda caía em lâminas.
Os trovões ainda quebravam o ar.
Mas no meio da tempestade…
Havia uma luz.
Uma luz forte.
Redonda.
Vibrante.
Cortando o negrume como se abrisse um rasgo no próprio céu.
Valentina piscou, tentando enxergar através da chuva.
A luz se aproximou.
E o som ficou mais forte.
THUM-THUM-THUM-THUM.
O barco balançou de lado novamente, mas ela não sentiu terror dessa vez.
Sentiu… algo familiar.
Algo impossível.
Algo que parecia esperança.
— Não… — ela sussurrou, com a voz falhando. — Não pode ser…
Outro raio explodiu no céu, iluminando a cena por um segundo perfeito.
E nesse segundo, ela viu.
O helicóptero.
Gigante.
Feroz.
Dominando o céu como se desafiasse a própria tempestade.
As luzes dele varreram o barco, iluminando Valentina inteira — molhada, tremendo, agarrada ao corrimão como se fosse a última coisa viva no mundo.
O vento provocado pelas hélices bagunçou tudo, levantou água do mar, fez a lona rasgar, arrancou objetos do chão.
Mas ela não tirou os olhos do helicóptero.
E então…
a porta lateral se abriu.
Ele apareceu.
— Nada vai te acontecer. — Rafael prometeu, apertando-a contra o peito. — Eu te peguei. Acabou. Eu te peguei.
Ela tentou responder — não conseguiu.
O corpo dela desabou nos braços dele, completamente.
Desmaiada.
Rafael a levantou como se fosse feita de vidro.
— Sobe! — ele gritou para o homem na escada do helicóptero. — AGORA!
Dois dos homens dele desceram, ajudando a estabilizar a subida enquanto o barco balançava de forma assustadora.
Mas Rafael não largou. Ele levou Valentina no colo durante todo o trajeto, como se o mundo estivesse explodindo embaixo e ele precisasse protegê-la com o próprio corpo.
Dentro do helicóptero, ele a deitou com cuidado sobre o banco acolchoado, mas manteve uma das mãos segurando a dela.
Como se soltar fosse um crime.
— Respira… — ele murmurou, a voz falhando pela primeira vez. — Vem comigo. Fica comigo.
Ela não ouviu.
Mas ele continuou.
Até o helicóptero pousar no heliponto do hospital.
Até os paramédicos tentarem se aproximar.
Até um deles dizer:
— Senhor, precisamos levá-la—
Rafael ergueu o rosto devagar.
A expressão dele fez o paramédico recuar meio passo.
— Toquem nela com cuidado. — ele disse, a voz baixa e perigosamente calma. — Se vocês deixarem cair um fio de cabelo dela… eu juro que derrubo esse hospital inteiro.
Os médicos engoliram seco.
Levaram Valentina para dentro — e Rafael foi atrás, sem soltar a mão dela até o último segundo permitido.
Quando chegaram ao quarto de observação, dois médicos esperavam.
— Senhor Montenegro, ela desmaiou pelo estresse extremo. — explicou o primeiro. — Hipotermia leve, desidratação, exaustão. Não encontramos ferimentos ou trauma visível, mas precisamos fazer exames completos.
Rafael não piscou.
— Façam. — disse, direto. — Tudo.
Exames de sangue, tomografia, monitoramento cardíaco. Não poupem nada.
O médico hesitou.
— É… é realmente necessário tudo isso?
Rafael deu um passo à frente.
Só um.
Mas foi suficiente para o ar da sala ficar menor.
— Se algo acontecer com ela… — ele sussurrou, encarando o médico como se pudesse enxerga-lo por dentro — Eu acabo com vocês.
O médico empalideceu.
— Si-sim, senhor. Começaremos imediatamente.
Rafael voltou o olhar para Valentina.
Ela estava deitada, pálida, o cabelo grudado no rosto, a respiração fraca… mas viva.
Viva.
Ele levou a mão ao rosto dela, afastou uma mecha molhada, e murmurou algo que nem ele percebeu que estava dizendo:
— Você não vai morrer longe de mim. Nunca mais.
E ficou ali.
Imóvel.
Guardando-a como se fosse território sagrado.
Como se qualquer um que entrasse naquela sala precisasse pedir permissão pra respirar.

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