Os gritos, os protestos, o som dos passos e das ordens foram se afastando pelo pier enquanto os homens de Rafael levavam mãe e filho como se removessem lixo caro da cena de um crime.
A noite respirou diferente depois disso.
Ainda havia sirenes ao longe. Ainda havia o mar. Ainda havia o cheiro de sangue, ferrugem e sal. Mas, pela primeira vez desde que Valentina abrira os olhos naquela madeira fria, o perigo tinha realmente começado a recuar.
Rafael soltou a mão dela apenas para se virar completamente.
A raiva ainda estava ali, forte, viva, elétrica. Mas, diante dela, outra coisa venceu.
Cuidado.
— Você está bem? — perguntou, e a pergunta saiu tão séria, tão inteira, que doeu mais do que qualquer outra coisa.
Valentina soltou o ar devagar.
O corpo ainda tremia. O medo da água ainda estava nos músculos. Falar sobre os pais tinha aberto uma fissura brutal dentro dela. Mas Rafael estava ali. E, contra toda lógica, isso ainda era suficiente para mantê-la de pé.
— Sim… — disse, embora a palavra saísse pequena demais diante de tudo. Depois ergueu os olhos para ele. — Então você sempre soube?
O vento passou entre os dois.
Rafael não respondeu de imediato.
Os olhos dele percorreram o rosto dela como se buscassem, ali, a maneira menos cruel de dizer a verdade, embora ambos soubessem que não existia forma suave para aquilo.
Por fim, ele assentiu.
— Sim.
Valentina o encarou por alguns segundos que pareceram longos demais.
— Você sabia sobre os meus pais.
— Eu sabia que Enzo estava ligado à morte deles — corrigiu com cuidado, sem fugir. — E sabia que existia uma filha. Quando descobri isso, comecei a procurar você antes dele. Antes que ele chegasse até você primeiro.
Ela prendeu a respiração.
— E não me disse.
A culpa passou pelo rosto dele como sombra.
— Não.
— Por quê?
Rafael soltou o ar, olhando por um breve instante para a água escura, antes de voltar os olhos para ela.
— Porque quando encontrei você… eu não sabia quem você era.
A testa dela franziu.
— O quê?
Apesar da exaustão, apesar do sangue ainda marcando o pier, apesar de tudo o que acabara de acontecer, a boca dele quase se moveu num sorriso cansado.
— Eu procurei uma herdeira ameaçada. Uma peça importante de uma guerra. Um nome. — A voz dele baixou. — Não esperava encontrar aquela mulher de Harvard.
O coração de Valentina tropeçou dentro do peito.
Rafael deu um passo mais perto.
— Você estava no auditório, defendendo uma tese como se o resto do mundo fosse pequeno demais para a inteligência que tinha. E eu me lembro de pensar que nunca tinha visto alguém falar de lei como se estivesse armando uma revolução com as próprias mãos.
Os olhos dela se encheram outra vez.
— Você se lembra disso?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário