Valentina a observou ir embora como se estivesse vendo partir, junto com aquela silhueta, o último vestígio de ingenuidade que ainda pudesse ter restado nela. Não chamou. Não implorou. Não havia mais o que chamar de volta. A mulher que ela acolhera nunca existira.
Enzo acompanhou a saída de Paola com um sorriso satisfeito antes de voltar os olhos para Valentina.
— Você é tão manipulável que chega a ser ofensivo — disse, aproximando-se alguns passos. — Eu quase senti pena vendo você se esforçar tanto para protegê-la. Quase.
Valentina ergueu os olhos para ele, e o que havia neles já não era mais apenas dor.
Era raiva.
Era nojo.
Era ódio.
— Você colocou uma espiã dentro da minha casa — ela disse, com a voz ainda quebrada, mas firme o bastante para feri-lo com as palavras. — Isso não faz de você inteligente. Só faz de você um covarde.
Enzo riu.
— Covarde? Não, Valentina. Estratégico. Você mesma a levou para perto de si. Você abriu a porta. Você confiou. Você contou. Você me entregou tudo sem nem perceber.
Cada frase caía como tapa.
Helena soltou um suspiro impaciente, olhando de novo para o relógio.
— Enzo, já basta. J**a ela na água e vamos embora. O avião não vai esperar para sempre.
A naturalidade com que ela disse aquilo fez o estômago de Valentina revirar.
Não havia hesitação naquela mulher.
Não havia culpa.
Helena não era apenas cúmplice. Helena já tinha atravessado o ponto de retorno havia muito tempo.
Enzo sorriu sem desviar os olhos de Valentina.
— Sim, mãe. Até porque, a essa altura, aquele idiota do Rafael já deve estar na mansão encontrando a casa vazia.
A menção a Rafael entrou nela como fogo e faca ao mesmo tempo.
Valentina levantou mais o rosto.
— Seu primo vai te encontrar.
Enzo soltou outra risada, agora mais baixa, mais venenosa.
— Não. Meu primo vai encontrar o seu cadáver boiando no mar enquanto eu saio do país e continuo vivendo muito bem, obrigado.
Ele deu mais um passo na direção dela.
— Você realmente acha que minha vida acabou porque conseguiu meia dúzia de provas? — O sorriso dele se alargou. — Você é boa, Valentina. Muito boa. Mas não boa o suficiente.
Ele se agachou diante dela.
Valentina recuou o corpo como pôde, o pulso ardendo sob a corda, o coração disparado com violência à medida que a água negra parecia mais próxima, maior, mais real.
— Não encosta em mim — ela sibilou.
Enzo inclinou a cabeça.
— Agora você quer impor limites? Que fase infeliz para descobrir a dignidade.
Ele estendeu a mão.
Valentina agiu antes de pensar.
Ergueu a perna e chutou com tudo o que tinha.
A sola do sapato acertou o peito dele em cheio.
Enzo perdeu o equilíbrio e caiu para trás sobre a madeira com um som seco, arrancando de Helena um arquejo irritado.
— Vadia! — ele rugiu, já tentando se levantar. — Eu vou te matar!
Valentina apoiou-se como conseguiu, respirando com dificuldade, o cabelo caindo no rosto, o medo da água misturado a uma raiva quente e feroz que não a deixaria morrer de joelhos.
— Seu filho da puta! — gritou. — Seu primo vai te achar e vai acabar com você!
Enzo se levantou com violência, os olhos escurecidos por um ódio quase animal.
Mas, em vez de avançar imediatamente, ele riu.
Riu daquele jeito torto, podre, de quem encontra prazer no próprio apodrecimento.
— É exatamente isso que eu quero ver — disse, limpando o canto da boca com o polegar. — Rafael destruído.
Ele se aproximou mais uma vez.
— Quero que ele sinta o gosto da perda de novo. Quero que perca a mulher. Quero que perca o filho. Quero olhar para ele e ver o mesmo vazio que ele passou anos fingindo esconder.
A frase caiu como veneno.
Valentina sentiu uma náusea subir. Não pela ameaça à própria vida — não só por isso — mas pela frieza com que ele falava do bebê, do filho dela, do filho de Rafael, como se estivesse comentando a troca de peças num jogo.
— Você é um monstro — ela disse, com a voz tomada de desprezo.
Enzo sorriu.
— Sim. E você é uma mulher morta.
Desta vez ele não deu chance.
Agarrou-a pelas pernas e começou a puxá-la pela madeira do pier.
Valentina soltou um grito sufocado quando o corpo foi arrastado de uma vez, o ombro raspando nas tábuas ásperas, a dor subindo em faíscas. O pânico tomou conta dela num jorro imediato quando viu a água ficando mais perto a cada segundo.

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