A noite caiu lentamente sobre a ilha.
O céu estava limpo, pintado de um azul profundo que aos poucos se transformava em um manto negro repleto de estrelas. A lua começava a subir no horizonte, refletindo no mar calmo como um caminho prateado que parecia levar direto ao infinito.
Valentina estava sentada na varanda da casa, observando o oceano enquanto uma taça de vinho descansava em sua mão.
A brisa suave fazia seus cabelos se moverem levemente.
Ela ainda parecia absorver tudo aquilo.
A ilha.
O silêncio.
A paz.
E Rafael.
Ela ouviu o som de algo sendo arrastado na areia.
Virou o rosto.
E viu Rafael alguns metros adiante, perto da praia, organizando algo perto de uma pequena fogueira que começava a ganhar forma.
Valentina franziu levemente a testa.
— O que você está fazendo?
Rafael não levantou o olhar imediatamente.
Estava concentrado tentando equilibrar uma pequena grelha improvisada sobre a fogueira.
— Preparando nosso jantar.
Valentina levantou uma sobrancelha.
— Você?
Ele finalmente olhou para ela.
— Sim.
Ela desceu os poucos degraus da varanda e caminhou até ele, segurando a taça.
— Rafael Montenegro vai cozinhar?
Ele colocou um pedaço de madeira no fogo.
— Não se acostuma.
Ela observou o que ele estava fazendo.
— Você sabe fazer isso?
Ele ficou em silêncio por dois segundos.
— Não.
Valentina piscou.
— Como assim não?
Ele apontou discretamente para o celular apoiado em uma pedra ao lado.
Na tela, um vídeo pausado.
Valentina se inclinou um pouco.
— Isso é um… tutorial?
Rafael deu de ombros.
— A internet serve para muitas coisas.
Valentina começou a rir.
Um riso leve, sincero.
— Você está aprendendo a fazer carne assada no meio de uma ilha particular vendo vídeo na internet?
— Exatamente.
Ela balançou a cabeça rindo.
— Isso é absurdamente maravilhoso.
Rafael colocou dois pedaços de carne sobre a grelha.
O cheiro começou a subir lentamente com o calor da fogueira.
Valentina pegou a garrafa de vinho que estava sobre a mesa pequena perto da varanda.
Encheu novamente sua taça.
Depois pegou outra e entregou a ele.
— Para o chef.
Rafael aceitou.
— Obrigado.
Ela observava o fogo dançando na areia enquanto a noite avançava.
O som das ondas quebrando na praia era constante e relaxante.
Por alguns minutos os dois ficaram ali.
Conversando.
Rindo.
Entre pequenas provocações e comentários sobre o “talento culinário” duvidoso de Rafael.
— Se isso der errado — ela disse — vamos ter que pedir pizza.
Rafael virou a carne com cuidado.
— Não tem entrega na ilha.
— Então você tem uma pressão extra agora.
Ele olhou para ela.
— Eu gosto de pressão.
Valentina tomou um gole de vinho.
— Eu sei.
O jantar ficou pronto pouco tempo depois.
Eles comeram sentados na areia perto da fogueira.
Pratos simples.
Carne.
Pão.
Queijo.
Vinho.
Mas para Valentina parecia um dos jantares mais perfeitos que já teve.
Apenas os dois.
Depois do jantar, Rafael colocou mais madeira na fogueira.
As chamas cresceram um pouco mais.
Valentina tirou os sapatos e estendeu as pernas na areia, olhando para o céu.
— Meu Deus…
Rafael olhou para ela.
— O quê?
Ela apontou para cima.
— Olha essas estrelas.
Ele levantou os olhos.
O céu estava completamente iluminado.
Valentina apoiou o peso do corpo nas mãos atrás dela.
— Em São Paulo a gente esquece que o céu é assim.
Rafael observava ela agora.
Não o céu.
Ela.
O reflexo do fogo iluminava o rosto dela.
Os cabelos.
Os olhos.
Valentina percebeu o olhar.
— O quê?
Ele balançou levemente a cabeça.
— Nada.
O polegar deslizou suavemente pela curva da bochecha até chegar aos lábios.
Valentina segurou a mão dele antes que ele afastasse.
E beijou seus dedos.
O gesto fez algo mudar na expressão dele.
Algo mais profundo.
Mais intenso.
Rafael a puxou novamente para si.
O beijo voltou.
Mais lento dessa vez.
Mais profundo.
Os lábios se encontravam com calma, como se quisessem memorizar cada segundo daquele momento.
A mão de Valentina deslizou pelo peito dele, sentindo o calor da pele sob seus dedos.
Rafael respondeu passando a mão pelas costas dela, aproximando ainda mais os dois.
A água quente escondia os movimentos, mas não o efeito deles.
Valentina inclinou a cabeça quando os lábios dele desceram pelo pescoço dela.
Um arrepio percorreu seu corpo inteiro.
— Rafael… — ela murmurou, quase sem voz.
Ele levantou os olhos para ela.
Como se quisesse ter certeza.
Ela respondeu puxando-o novamente para perto.
Não havia dúvida.
A noite da ilha parecia envolver os dois em silêncio.
A lua iluminava o mar além da janela.
O vapor da água subia lentamente ao redor deles.
Ela encostou a testa na dele.
— Eu nunca imaginei que você fosse assim — ela sussurrou.
Rafael sorriu de leve.
— Assim como?
Ela passou os dedos pelos cabelos dele.
— Humano.
Ele riu baixo.
— Isso é um elogio?
— É.
Rafael inclinou o rosto novamente.
Os lábios tocaram os dela outra vez.
Mas agora não havia pressa.
Era diferente.
Mais profundo.
Mais cheio de algo que nenhum dos dois ainda tinha colocado em palavras.
Quando finalmente o silêncio voltou ao banheiro, Valentina estava encostada nele novamente.
O coração dela ainda batia rápido.
Ela respirou fundo.
— Acho que estou começando a gostar muito desse sequestro.
Rafael beijou a testa dela.
— Ainda temos mais um dia.
Valentina fechou os olhos.
— Então vamos aproveitar cada segundo.
Lá fora, o mar continuava se movendo lentamente sob a luz da lua.

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