O telefone ainda estava na mão de Valentina quando ela respirou fundo.
O silêncio do escritório parecia mais pesado agora.
Ela olhou para a porta fechada por alguns segundos, certificando-se de que ninguém estava por perto. Depois caminhou até a janela ampla da sala.
São Paulo se espalhava abaixo dela.
Carros, pessoas, movimento.
Vida.
Mas naquele instante, tudo parecia distante.
Ela voltou para a mesa e discou o número novamente.
O telefone tocou duas vezes.
— Senhora Montenegro.
A voz calma de João Carlos Andrade veio do outro lado da linha.
Valentina sentiu o coração acelerar.
— Senhor Andrade.
Por um instante nenhum dos dois falou.
Como se ambos soubessem que aquela ligação carregava peso demais.
— Acredito que a senhora já tenha percebido por que estou ligando — disse o investigador.
Valentina sentou-se lentamente na cadeira.
— Encontrou alguma coisa?
Houve uma pausa curta.
Do outro lado da linha, João Andrade suspirou.
— Encontrei.
O coração dela deu um salto no peito.
Os dedos dela apertaram o telefone.
— Encontrou o quê?
Mais um segundo de silêncio.
— O corpo.
A palavra caiu no ar como uma pedra.
Valentina fechou os olhos.
Sara.
Por anos aquela história tinha sido apenas uma sombra na vida de Rafael.
Uma perda que ele nunca conseguiu fechar.
Um adeus que nunca aconteceu.
E agora…
Agora ela sabia.
— Tem certeza? — perguntou Valentina, quase em um sussurro.
— Tenho.
A voz do investigador estava firme.
— Foram semanas de busca. Documentos antigos, registros abandonados, investigações arquivadas… mas finalmente encontramos a localização.
Valentina sentiu a garganta apertar.
Ela imaginou Rafael naquele momento.
O homem forte.
Implacável.
Indestrutível.
E também o homem que, em noites silenciosas, carregava o peso de um passado que nunca conseguiu enterrar.
— O senhor tem certeza absoluta? — perguntou novamente.
— Sim.
Valentina respirou fundo.
O mundo parecia girar um pouco mais devagar.
— Eu vou enviar as informações completas — continuou o investigador — mas achei que a senhora gostaria de saber primeiro.
Valentina ficou em silêncio por alguns segundos.
O olhar perdido na cidade além da janela.
— Obrigada por ter continuado procurando.
— Foi a senhora quem pediu.
Ela fechou os olhos novamente.
Sim.
Foi ela.
Porque desde o dia em que descobriu aquela parte da história de Rafael, algo dentro dela dizia que aquilo precisava ser resolvido.
Não por vingança.
Mas por paz.
Por fechamento.
— Senhor Andrade…
— Sim?
Ela hesitou por um segundo.
Então perguntou:
— E meus pais?
Do outro lado da linha houve silêncio.
Um silêncio pesado.
Valentina já conhecia aquele tipo de silêncio.
Era o silêncio de quem não tinha uma resposta.
João Andrade suspirou.
— Ainda não, senhora.
Valentina apertou o telefone.
— O caso dos seus pais… — ele continuou — tem muitos obstáculos.
Ela não disse nada.
— Mas continuo investigando.
Ela fechou os olhos.
— Em breve entro em contato novamente.
Valentina respirou fundo.
— Obrigada.
A ligação terminou.
Ela ficou parada por alguns segundos.
O telefone ainda na mão.
O coração batendo forte.
Sara foi encontrada.
Valentina apoiou os cotovelos na mesa e passou as mãos pelo rosto.
Os pensamentos começaram a correr.
Rafael.
Ele precisava saber.
Ele merecia saber.
Ela levantou-se devagar.
Caminhou novamente até a janela.
A cidade parecia igual.
E Rafael finalmente poderia se despedir.
Valentina cruzou os braços lentamente.
Era Lurdes novamente.
— Sim, Lu.
— A senhora prefere hotel ou casa para hospedagem?
Valentina ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Não.
Aquilo não podia ser em um hotel cheio de pessoas.
Rafael precisava de espaço.
— Quero uma casa.
— Alguma localização específica?
Valentina olhou novamente para as informações no celular.
Ela respondeu com calma:
— Próxima a Río Gallegos, por gentileza.
— Certo, senhora. Vou verificar as opções.
— Obrigada, Lu.
Ela desligou.
O escritório voltou ao silêncio.
Valentina pegou novamente o celular.
Rolou a tela devagar.
Leu cada informação outra vez.
Cada linha.
Cada detalhe.
Então suspirou.
Encostou-se na cadeira.
— Vou te ajudar a conseguir tudo que nunca deixaram você ter, Rafael…
A voz saiu baixa.
Quase um sussurro.
Ela imaginou o rosto dele.
Aquele olhar sempre tão controlado.
Sempre tão firme.
Mas que às vezes, quando pensava estar sozinho…
Carregava um peso que ninguém mais via.
Valentina sabia.
Ela tinha visto.
Sabia que aquela história nunca tinha sido encerrada.
Sabia que uma parte dele ainda estava presa naquele passado.
E agora…
Agora ela podia libertá-lo.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.
Não era um sorriso de vitória.
Era um sorriso tranquilo.
De quem sabia que estava fazendo a coisa certa.
Ela bloqueou o celular novamente.
E se levantou.
Porque o mundo lá fora continuava girando.
Mas em poucos dias…
Ela levaria Rafael para o lugar onde o passado dele finalmente poderia descansar.

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