O quarto estava mergulhado em penumbra.
A iluminação suave do abajur deixava a suíte envolta em um silêncio quente, daqueles que só existem depois de um dia cheio e de uma noite que termina no lugar certo.
Valentina estava deitada ao lado de Rafael, parcialmente sobre ele, a cabeça repousada no peito nu dele, enquanto os dedos desenhavam círculos lentos sobre a pele morna.
O corpo ainda carregava a memória da intimidade de minutos antes.
O lençol cobria apenas o necessário.
Lá fora, São Paulo continuava acordada.
Lá dentro, o mundo parecia ter diminuído até caber nos dois.
Rafael mantinha um braço ao redor da cintura dela, preguiçoso, protetor, como se não houvesse pressa alguma em voltar a ser o homem que o resto do mundo conhecia.
Valentina fechou os olhos por um momento, ouvindo a respiração dele.
Depois ergueu levemente o rosto.
— Rafael…
A voz dela saiu baixa. Mansa.
Ele passou os dedos devagar pelas costas dela.
— Hm?
Ela hesitou por um segundo.
Não por medo.
Mas porque gostava do som do silêncio entre eles quando não havia urgência.
— O que você vai fazer neste fim de semana?
Rafael abriu os olhos.
O tom da pergunta foi casual.
Mas a mulher sobre ele não fazia perguntas casuais sem intenção.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando o topo dos cabelos dela.
— Porque?
Valentina sorriu sozinha.
Continuou desenhando círculos no peito dele, como se aquela fosse apenas mais uma conversa qualquer entre o cansaço e o carinho.
— Eu tenho uma surpresa.
Ele ficou em silêncio.
Valentina ergueu um pouco mais o rosto para encará-lo.
Os olhos dela estavam tranquilos. Mas havia um brilho ali.
Alguma decisão tomada.
— Se você me deixar guiar, sem perguntas e sem respostas… — murmurou ela — porque eu não vou dar nenhuma… eu quero sair com você.
O canto da boca dele subiu.
— Deixar o meu fim de semana inteiro nas suas mãos?
Ela riu baixo.
Encostou os lábios no peito dele num beijo demorado, preguiçoso, quase provocador.
— Você, Rafael Montenegro… confia em mim.
A frase pousou entre os dois com mais peso do que parecia ter.
Rafael a encarou.
Longamente.
Ele era um homem que desconfiava por instinto.
Que controlava antes de entregar.
Que planejava antes de sentir.
Que vigiava antes de dormir.
Confiar era, para ele, um tipo de risco.
E ainda assim…
Naquele quarto, com aquela mulher deitada sobre ele como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo, ele percebeu que a resposta já estava dada há muito tempo.
— Confio.
Valentina sorriu.
Um sorriso pequeno no começo.
Depois maior.
Aquele sorriso que não vinha com ironia, nem defesa, nem cálculo.
Só felicidade.
Ela se aconchegou mais nele.
— Então vamos embarcar num fim de semana emocionante.
Rafael passou a mão pela nuca dela, brincando com os fios soltos.
— “Emocionante” me preocupa.
Ela riu.
— Ah… e não adianta me perguntar para onde vamos. Não falo nem sob tortura.
Ele soltou um sopro divertido pelo nariz.
— Isso parece ameaça, não convite.
Valentina ergueu um pouco o rosto outra vez.
— Vai aceitar assim mesmo.
Ele a apertou levemente pela cintura.
— Arrogante.
— Precavida.
Rafael inclinou-se e beijou a testa dela.
Demorado.
Silencioso.
Depois passou os dedos pelo rosto dela, afastando uma mecha.
— Você está muito confiante para alguém que acabou de sequestrar meu fim de semana.
Valentina fechou os olhos de novo.
— Eu mereço um pouco de ousadia depois de abrir um escritório internacional.
Ele soltou uma risada baixa.
— Merece.
O silêncio voltou.
Mas agora era ainda mais íntimo.
Valentina mantinha a cabeça sobre o peito dele, ouvindo o coração dele bater como se fosse um som conhecido. Seguro. Quente. Vivo.
E, aos poucos, o cansaço da semana começou a vencer.
A respiração dela desacelerou.
Os dedos, antes inquietos sobre a pele dele, ficaram imóveis.
Rafael percebeu primeiro pelo peso.
Depois pelo silêncio.
Ela tinha adormecido ali.
No peito dele.
Como se fosse fácil.
Como se não houvesse contratos, prazos, medos ou segredos entre os dois.
Ele ficou olhando o teto por alguns minutos.
A mão ainda na cintura dela.
Os pensamentos, pela primeira vez em muitos dias, estranhamente quietos.
Confiar em alguém nunca tinha parecido sensato.
Mas com Valentina…
Sensato nunca foi o que importou.
Ele inclinou o rosto e beijou o cabelo dela.
Depois fechou os olhos.
O restante da semana passou rápido.
Rápido demais.
Como tudo que importa costuma passar.
Entre reuniões, papéis, telefonemas e decisões, os dias correram sem dar espaço para grandes pausas. Mas havia algo diferente em Valentina.
Uma inquietação escondida sob a calma.
Uma expectativa que ela disfarçava bem demais para quem não a conhecia — e mal o suficiente para quem dormia ao lado dela.
Rafael percebeu.
Claro que percebeu.
Percebeu quando ela mexeu no celular mais vezes do que o normal.
Percebeu quando ela respondia mensagens com um cuidado calculado.
Percebeu quando, duas vezes naquela semana, a encontrou olhando alguma coisa na tela com o cenho franzido… e bloqueando o aparelho no segundo em que ele se aproximava.
Ele não perguntou.
Não diretamente.
Tentou descobrir de outras formas.
Uma observação aqui.
Uma pergunta casual ali.
Um comentário lançado como se fosse despretensioso.
Nada.
Valentina sorria, desviava e seguia.
Até Lurdes, a secretária dela, estava agindo com uma eficiência suspeita.
O que dizia muito.
Porque secretárias eficientes demais quase sempre estão escondendo alguma coisa a pedido de alguém.
Ele poderia ter usado outros meios.
Poderia ter mandado Moreira descobrir em cinco minutos.
Poderia ter acessado agendas, nomes, reservas, destinos.
Poderia.
Mas não fez.
E isso, por si só, já dizia mais do que ele gostaria de admitir.
Porque abrir mão do controle nunca foi natural para Rafael Montenegro.
Mas com Valentina…
A agenda dela, impecavelmente limpa, dizia menos do que deveria.
Os funcionários do escritório de Valentina, quando questionados casualmente, sabiam menos ainda.
E Valentina…
Valentina simplesmente sorria e o deixava sem resposta.
Ele poderia ter usado outros meios.
Mas no fim…
Aceitou o que ela queria fazer.
Um passo enorme para um homem como ele.
Confiar literalmente a própria vida — e o próprio fim de semana — a uma mulher.
Rafael recostou-se na poltrona.
— Isso tudo está começando a me preocupar.
Valentina soltou uma risada macia.
— Porque?
— Porque você está feliz demais com o meu desconforto.
Ela virou um pouco o corpo para ele.
— Eu estou feliz com o meu controle temporário da situação.
— Temporário?
— Muito temporário. Aproveite enquanto dura.
Ele aproximou-se o suficiente para encostar os lábios perto do ouvido dela.
— Você está abusando da minha boa vontade, doutora.
Valentina sentiu um arrepio subir pelos braços.
Mas não recuou.
Ao contrário.
Virou o rosto levemente na direção dele.
— Você disse que confiava em mim.
Rafael a encarou.
O avião começava a ganhar velocidade na pista.
A vibração sutil subia pelo corpo.
— E confio.
Ela sustentou o olhar dele por mais um segundo.
Depois sorriu, satisfeita.
Como se aquela resposta fosse tudo que precisava ouvir.
O avião deixou o chão.
São Paulo começou a ficar menor sob as nuvens.
Valentina olhou pela janela por alguns segundos, mas a mente dela não estava ali.
Estava adiante.
No que viria.
No que Rafael sentiria quando entendesse.
No que aquele fim de semana realmente significava.
Ela respirou fundo.
Rafael a observava em silêncio.
E, mesmo sem saber o destino…
Havia algo que ele já sabia.
Aquela viagem importava.
Importava demais.
Não era turismo. Não era impulso. Não era capricho.
Era alguma coisa que Valentina estava fazendo com o coração.
Ele fechou os olhos por um segundo e recostou a cabeça.
— Seja lá o que você está aprontando… — murmurou.
Ela olhou para ele.
— Vai valer a pena.
Rafael abriu os olhos devagar.
A encarou.
E acreditou.
Porque, por algum motivo que ele ainda não entendia completamente, quando Valentina Diniz dizia que algo valeria a pena…
Ele queria ir até o fim.
O céu lá fora se abriu em um azul limpo.
Dentro do avião, o silêncio entre os dois não era vazio.
Era expectativa.
E, pela primeira vez em muito tempo, Rafael Montenegro aceitava não ter controle de tudo.
Porque o desconhecido, naquela manhã, tinha o rosto dela.

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