O silêncio do quarto não era vazio.
Era preenchido.
Pelo som baixo dos talheres sendo apoiados na bandeja.
Pelo vapor leve que ainda subia do caldo morno.
Pela respiração mais estável de Rafael.
E pela presença dela.
Valentina recolheu a tigela com cuidado, organizando a bandeja com a mesma naturalidade.
Ela caminhou até a mesa lateral e depositou a bandeja ali.
Quando voltou o olhar para a cama, encontrou os olhos dele já sobre ela.
Atentos.
Silenciosos.
Observadores.
Como sempre.
Mas não da mesma forma de antes.
Havia algo menos distante naquele olhar. Menos estratégico. Mais… presente.
— Está melhor? — perguntou ela, em tom baixo.
Rafael apoiou a cabeça no travesseiro, ainda com o corpo parcialmente cansado, mas a febre já menos agressiva.
— Operacional. — respondeu.
Valentina arqueou levemente uma sobrancelha.
— Você está de cama, medicado e sob vigilância médica. Isso não é “operacional”.
O canto da boca dele se moveu minimamente.
— É o suficiente.
Ela suspirou pelo nariz, mas um leve sorriso escapou antes que pudesse conter.
— Para você, sempre é.
O quarto voltou ao silêncio.
Ela caminhou até o armário e retirou roupas leves para dormir. O movimento foi calmo, quase automático, como se estivesse tentando manter a mente ocupada enquanto o peso das últimas horas ainda ecoava por dentro.
Ela entrou no banheiro sem comentar.
O som da água correndo, suave, ecoou pelo ambiente.
Rafael permaneceu deitado, os olhos voltados para o teto por alguns segundos.
Depois para a porta fechada.
Ela mentiu.
A conclusão não veio com irritação.
Nem com raiva.
Veio com precisão.
Ele não precisava de provas formais para reconhecer padrões. Não quando se tratava dela.
Ele havia decorado tudo isso sem perceber quando, exatamente.
E, ainda assim…
Não a confrontou.
Ela havia desmoronado na chuva.
Desmaiado em seus braços.
Soube do seu passado.
Pressioná-la agora seria crueldade demais.
E ele não era cruel com ela.
Nunca foi.
A porta do banheiro se abriu minutos depois.
Valentina saiu com os cabelos ainda levemente úmidos, vestindo roupas simples de dormir que contrastavam quase absurdamente com o ambiente sofisticado da mansão Montenegro.
Ela parecia menor assim.
Caminhou até o lado da cama e ajustou a luminária para uma luz mais baixa.
— O médico disse repouso absoluto. — murmurou. — Então nada de discutir.
Rafael a observou em silêncio.
— Eu não estou discutindo. — respondeu, baixo.
Ela cruzou os braços levemente.
— Ótimo. Então coopere.
Ele quase sorriu.
Valentina deu a volta na cama e se deitou com cuidado, ainda sentindo o cansaço pesado no corpo. O colchão cedeu levemente sob o peso dela, e o quarto mergulhou em uma quietude mais profunda, mais íntima.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

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