A primeira luz do dia entrou no quarto de forma tímida.
Suave.
Quase silenciosa.
Como se até o sol soubesse que aquele quarto não precisava de pressa.
Valentina despertou devagar. Foi lento, pesado, envolto em uma sensação incomum de calor e segurança que, por alguns segundos, ela não conseguiu identificar.
Então percebeu. O braço de Rafael ainda estava ao redor dela.
Como se, mesmo dormindo, ele se recusasse a soltá-la.
A respiração dele estava mais estável agora. Profunda. Regular. O peito subia e descia em um ritmo tranquilo que contrastava completamente com o homem que, horas antes, enfrentava febre, memórias e promessas silenciosas na escuridão.
Ela permaneceu imóvel.
A cabeça repousada contra o peito dele.
A mão dele apoiada nas costas dela.
Os dedos ainda levemente curvados sobre o tecido do pijama, como se tivessem se fechado ali durante a madrugada… e decidido permanecer.
O coração dela apertou.
Ela ergueu o olhar com cuidado, observando o rosto dele de perto pela primeira vez sob a luz do amanhecer.
Sem a rigidez habitual.
Sem a máscara corporativa.
Sem o controle absoluto que o mundo conhecia.
Apenas Rafael.
Os traços ainda carregavam sinais da noite difícil, mas a expressão estava mais suave. Menos tensa. Como se o sono ao lado dela tivesse sido, de alguma forma, mais reparador do que qualquer medicação.
Valentina inspirou fundo.
E sentiu.
O cheiro leve dele.
O calor do corpo dele.
A proximidade que já não parecia um território proibido.
Aquilo era perigoso.
Muito mais perigoso do que discussões.
Do que contratos.
Do que silêncio estratégico.
Porque aquilo era conforto.
E conforto criava vínculos.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Só um.
E o pensamento veio, involuntário, assustadoramente honesto:
Não posso me apaixonar.
Deus… me ajuda.
A mão dela se moveu lentamente sobre o peito dele, como se fosse se afastar.
Mas antes que conseguisse, os dedos dele se fecharam mais ao redor dela.
Instintivamente.
Ele não abriu os olhos de imediato.
Apenas a puxou levemente para mais perto.
Como se reconhecesse a ausência dela mesmo entre o sono e a consciência.
— Por que acordou mais cedo…? — murmurou, a voz rouca, ainda carregada de sono.
Valentina congelou por meio segundo.
Depois sorriu de leve.
— Por nada. — respondeu suavemente.
Ele abriu os olhos devagar.
O olhar encontrou o dela quase de imediato.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
A luz da manhã atravessava as cortinas pesadas, desenhando sombras suaves sobre o quarto. O mundo lá fora já se movia. Mas ali dentro… o tempo parecia desacelerado.
Rafael deslizou a mão até o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo com um gesto lento, quase inconsciente.
— Dormiu bem? — perguntou baixo.
Ela hesitou.
Porque a resposta verdadeira era mais complexa do que “sim”.
Mas, ainda assim:
— Melhor do que imaginei. — admitiu.
O canto da boca dele se moveu minimamente.
— Bom.
Ela apoiou a mão no colchão e se ergueu com cuidado.
O corpo ainda reclamava levemente, mas nada comparado à exaustão do dia anterior. Caminhou até o banheiro sem pressa, sentindo o olhar dele acompanhando cada movimento.
Antes de fechar a porta, virou o rosto.
— Você também precisa de um banho. Está oficialmente liberado da condição de paciente apenas sob supervisão.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Supervisão médica?
Ela sorriu, já entrando no banheiro.
— Supervisão minha.
O som do chuveiro ecoou suave pelo ambiente.
Minutos depois, a porta do banheiro se abriu novamente, liberando vapor quente que se espalhou lentamente pelo quarto. Valentina ajustava o cabelo quando percebeu a presença dele na entrada.
Rafael parou à porta por um segundo.
Ela não demonstrou surpresa.
Apenas virou levemente o rosto.
— Achei que o paciente obediente viria.
Ele entrou.



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