Valentina franziu levemente a testa ainda de olhos fechados, a consciência retornando aos poucos como quem emerge de águas profundas. O corpo estava pesado. Dolorido. Cada músculo parecia reclamar em silêncio.
Mas não era isso que a incomodava.
Era o calor ao redor dela.
Quente demais.
Abafado demais.
Como se o ar estivesse carregado.
Ela respirou fundo, devagar, sentindo a garganta levemente seca, o corpo ainda envolto em um cansaço profundo que não era apenas físico.
Memórias fragmentadas passaram pela mente.
A respiração falhou por um segundo.
Os olhos se abriram lentamente.
O quarto estava silencioso. Iluminado por uma luz suave que entrava pelas cortinas pesadas. O som distante da chuva ainda persistia contra os vidros altos da mansão.
Ela permaneceu imóvel por alguns segundos.
Tentando organizar a própria mente.
Então percebeu.
O calor não vinha dela.
Valentina virou levemente a cabeça sobre o travesseiro.
E o viu.
Rafael estava deitado ao lado dela.
Ainda com a testa franzida.
A respiração mais pesada do que o normal.
O rosto levemente corado — algo raro demais para um homem que parecia sempre esculpido em controle e frieza.
O peito dele subia e descia em um ritmo irregular.
E uma fina camada de suor frio cobria a testa.
O coração dela apertou sem aviso.
— Rafael… — a voz saiu baixa, rouca.
Nenhuma resposta.
Ela tentou se mover.
Uma dor atravessou o corpo inteiro, lembrando que havia caminhado sob a chuva, chorado até a exaustão, desmaiado.
Mas ignorou.
Sentou-se devagar na cama.
O quarto girou levemente por um segundo, mas ela apoiou a mão no colchão, respirando fundo até a tontura diminuir.
Voltou o olhar para ele.
E então estendeu a mão.
Hesitou por meio segundo.
E tocou a testa dele.
O contato foi imediato.
Quente.
Quente demais.
A mão dela congelou.
— Meu Deus…
A febre estava alta.
Muito alta.
Ela se inclinou um pouco mais, agora observando com atenção clínica, como alguém acostumado a analisar situações sob pressão.
A respiração dele estava mais pesada.
A mandíbula levemente tensa.
A testa franzida como se estivesse lutando contra algo invisível mesmo dormindo.
— Rafael… — chamou novamente, desta vez tocando levemente o ombro dele.
Nenhuma reação.
Apenas um leve movimento do rosto.
Como se estivesse preso em um sonho.
Ou pior.
Em um pesadelo.
Valentina apertou os lábios.
Ele ficou na chuva.
A lembrança veio como um golpe silencioso.
Um peso estranho se instalou no peito dela.
Culpa.
Ela deslizou para fora da cama com esforço, os pés tocando o chão frio enquanto o corpo ainda protestava, mas ignorou a dor.
Caminhou até a porta.
— Moreira. — a voz saiu baixa, mas firme o suficiente para atravessar o corredor quando ela a abriu.
Não demorou.
Passos rápidos. Controlados.
A porta se abriu e Moreira surgiu, postura impecável, mas o olhar imediatamente atento ao estado dela.
— Senhora Montenegro.
— Ele está com febre. Alta. — disse sem rodeios.
Moreira não demonstrou surpresa exagerada. Apenas um leve endurecimento do olhar.
— O médico já está de sobreaviso desde ontem, senhora. Chamarei imediatamente.
Ele se virou sem fazer mais perguntas.
Como se já tivesse previsto aquela possibilidade.
Valentina fechou a porta devagar.
E voltou até a cama.

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