A sala de reuniões estava em silêncio absoluto.
Gráficos projetados na tela. Relatórios abertos. Diretores atentos. O tipo de reunião que não admitia interrupções.
Rafael permanecia de pé na cabeceira da mesa, uma das mãos apoiada sobre o encosto da cadeira, enquanto o diretor financeiro finalizava a apresentação sobre projeções internacionais.
— …e se mantivermos a estabilidade nas próximas duas semanas, consolidamos a liderança sem necessidade de movimentação agressiva no mercado asiático.
Rafael não respondeu imediatamente.
Observava os números. As curvas. Os riscos.
Controle. Estratégia. Tempo.
— Não vamos agir por impulso. — disse por fim, com calma. — Primeiro analisamos as opções e depois avançamos.
Alguns diretores assentiram discretamente.
Moreira permanecia próximo à lateral da sala, como sempre. Postura impecável. Tablet em mãos. Silencioso. Observador.
Foi então que o telefone pessoal de Rafael vibrou.
Moreira lançou um olhar automático para a tela.
E congelou por meio segundo.
Nome exibido: Arthur — Segurança Sra. Montenegro
Os olhos dele se ergueram imediatamente para Rafael.
Não interrompeu a reunião com palavras. Apenas deu dois passos discretos e inclinou levemente o telefone na direção dele.
Rafael olhou.
E parou de falar no meio da frase.
Silêncio.
A sala inteira percebeu.
Porque Rafael Montenegro não interrompia reuniões estratégicas. Nunca.
Ele pegou o telefone sem explicar. Sem justificar. Sem olhar para os diretores.
Atendeu ali mesmo.
— Fala.
A voz saiu baixa. Direta. Fria.
Do outro lado, o som da chuva forte invadia a ligação.
— Senhor… aconteceu algo com a senhora.
Rafael já estava em movimento antes mesmo do homem terminar a frase.
— Onde você está?
Ele se virou e saiu da sala sem pressa aparente, mas com passos longos, firmes.
Moreira o seguiu imediatamente. Sem perguntas. Sem hesitação.
A porta da sala se fechou atrás deles, abafando as vozes dos diretores.
O corredor executivo parecia mais silencioso que o normal.
Rafael levou o telefone ao ouvido enquanto caminhava em direção ao elevador privativo.
— Fale.
— A senhora veio até uma casa de chá no centro da cidade, senhor. — disse o segurança, mantendo o tom profissional. — Chegou tranquila. Tudo normal. Pensamos que ela tomaria chá com sua amiga como sempre faz.
As portas do elevador se abriram.
Rafael entrou sem desacelerar.
Moreira entrou logo atrás.
— E depois? — perguntou Rafael.
O elevador começou a descer.
— Cerca de meia hora depois, senhor… ela saiu.
Uma pausa curta do outro lado da linha.
— Diferente.
O maxilar de Rafael se tensionou discretamente.
— Diferente como?
O elevador continuava descendo pelo prédio, os números digitais diminuindo um a um.
— Ela estava chorando, senhor. — respondeu o segurança.
Silêncio dentro do elevador.
Apenas o som mecânico da descida.
— Eu me aproximei imediatamente e ofereci o guarda-chuva. — continuou o homem. — Ela recusou.
Moreira permaneceu imóvel, mas o olhar já havia endurecido.
— Recusou? — Rafael perguntou.
— Sim, senhor. E ordenou que eu fosse para casa.
Agora, a tensão no ar se tornou palpável.
— Onde ela está agora?
— Estou a duas quadras da casa de chá. Está chovendo muito forte, senhor… e ela está andando.
O elevador chegou ao subsolo.
As portas se abriram.
Rafael saiu sem diminuir o ritmo, caminhando diretamente para o estacionamento privativo.
— Continue seguindo ela. — ordenou, a voz ainda baixa, mas mais firme.
— Sim, senhor.
Ele já destravava o carro com o controle.
— Estou chegando. — completou. — Me mantenha informado a cada mudança de trajeto.
— Entendido.
A ligação foi encerrada.
O silêncio no subsolo era pesado, quebrado apenas pelo som distante da chuva forte atingindo a entrada do estacionamento.
Rafael guardou o telefone lentamente.
Virou-se para Moreira.
O olhar dele agora estava mais frio. Mais calculado.
Mais perigoso.
— Verifique quem esteve na casa de chá. — disse.
Moreira assentiu imediatamente.
— Sim, senhor.
— Quero saber com quem ela falou. — continuou Rafael, abrindo a porta do carro. — E exatamente o que aconteceu naquele local.
— Iniciarei a verificação agora.
Rafael entrou no veículo. Ele ligou o motor.
Sem saber de nada. Sem saber por quê.
Mas com a certeza instintiva de que algo havia acontecido com Valentina.
E isso, por si só, já era motivo suficiente para interromper qualquer reunião no mundo.
O limpador do para-brisa se movia com violência ritmada.
As gotas batiam contra o vidro do carro como se o céu estivesse desabando sobre São Paulo.
Rafael não desviava os olhos da estrada.
— Última localização confirmada na entrada da mansão, senhor. — a voz do segurança ecoava pelo viva-voz, levemente distorcida pela chuva. — Ela está parada no mesmo lugar há mais de dez minutos.
A mandíbula de Rafael travou.
— Continue mantendo distância visual. — disse, seco.
— Sim, senhor.
O trânsito não andava.
Faróis vermelhos. Buzinas. Carros imóveis.
Lentos demais. Todos lentos demais.
O dedo dele tamborilou contra o volante.
Sinal silencioso de impaciência.
— Moreira. — a voz saiu baixa.
— Já estou verificando a casa de chá, senhor. — respondeu do banco ao lado, sem precisar que ele explicasse mais nada.
O carro avançou alguns metros.
Outro semáforo. Outra fila. Outra maldita lentidão.
Rafael soltou o ar pelo nariz, controlado.
Mas os olhos… os olhos estavam diferentes.
Não frios. Não calculistas.
Alertas.
Finalmente, o portão da mansão surgiu ao fundo da rua.
Imenso. Iluminado pelos relâmpagos que rasgavam o céu escuro.
O carro ainda nem havia parado completamente quando Rafael abriu a porta.
A chuva o atingiu em cheio.
Ele não se importou.
A porta do carro bateu com força atrás dele enquanto caminhava direto pela entrada principal.

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