A respiração de Valentina começou a falhar.
— Isso… — a voz dela saiu baixa — …é do laudo oficial?
— Não. — ele respondeu. — O laudo oficial foi simplificado.
A terceira foto caiu sobre a mesa.
E o mundo parou.
O corpo da mãe.
De lado. Imóvel. O cabelo manchado. O vestido rasgado pelo impacto.
O sangue escorrendo pela lateral do rosto.
A xícara de chá tilintou no pires quando a mão de Valentina tremeu com força pela primeira vez.
— Não… — o sussurro escapou sem permissão.
Ela levou a mão à foto.
Os dedos tocaram a imagem como se pudessem atravessar o papel.
Como se pudessem alcançá-la.
— Mãe… — a palavra saiu quebrada.
A próxima foto revelou o pai.
Preso ao cinto. O corpo inclinado. O rosto ferido. Ainda dentro do carro destruído.
O envelope escorregou da mão dela e caiu sobre a mesa.
As lágrimas vieram sem aviso.
Ela passou a mão pela foto do pai, os dedos tremendo ao seguir o contorno do rosto dele na imagem congelada.
— Eles… — a voz falhou.
O investigador não interrompeu.
Porque sabia: aquele tipo de dor não aceita interrupção.
— Isso… isso não pode… — ela tentou falar, mas a voz se dissolveu.
Ela abaixou a cabeça, os cabelos caindo ao redor do rosto enquanto lágrimas pingavam sobre as fotos espalhadas na mesa de chá.
Pessoas ao redor conversavam. Talheres tilintavam. Uma tarde comum.
E ali, naquela mesa discreta, o mundo dela estava desmoronando em silêncio.
— Senhorita Diniz. — ele disse, baixo, firme. — Ou melhor, senhora Montenegro.Respire.
Ela negou com a cabeça.
— Eu… eu não vi eles assim… — sussurrou. — Nunca me mostraram… nunca…
Ela segurou a foto da mãe com mais força, como se tivesse medo de que até aquela imagem pudesse ser tirada dela.
— Disseram que foi rápido… que foi um acidente… que não houve sofrimento…
A voz quebrou completamente.
As lágrimas escorriam livres agora.
Não havia postura. Não havia máscara. Não havia orgulho.
Apenas filha.
Apenas luto.
Apenas dor crua.
O céu de São Paulo escureceu do lado de fora da casa de chá.
O primeiro trovão ecoou ao longe.
Como um aviso.
Ela respirou fundo, com dificuldade, os dedos ainda apertando a fotografia por um segundo antes de colocá-la de volta sobre a mesa.
Quando falou novamente, a voz estava diferente.
Ferida. Mas firme por baixo da dor.
— O senhor disse que surgiram pistas novas. — disse, encarando-o entre lágrimas. — Quero saber tudo.
Ele ajeitou levemente a postura na cadeira.
— O que posso afirmar, com segurança, é que o caso foi encerrado rápido demais. — respondeu. — Relatórios ignorados. Análises técnicas arquivadas. Testemunhos reduzidos.
Um relâmpago iluminou o céu através do vidro da casa de chá.
— E os freios? — ela perguntou, apontando a foto.
— Apresentavam sinais de intervenção. — disse ele. — Não falha espontânea como foi colocado no relatório final.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Então não foi um acidente. — ela concluiu.
Não era uma pergunta.
Era sentença.
Ele sustentou o olhar.
— Tudo indica que não.
A mão dela voltou à foto do pai.
— O senhor disse que há pessoas importantes por trás. — a voz dela saiu baixa, mas afiada. — Quero nomes.
Ele respirou fundo.
— Infelizmente, essa informação eu ainda não tenho. — respondeu com honestidade controlada. — Mas, analisando o caso mais a fundo, notei que todos os documentos relevantes foram deixados de lado e o processo foi encerrado com uma velocidade incomum para um acidente com vítimas de alto perfil.
Outro trovão ecoou.
Mais próximo.
A chuva começou a cair forte contra os vidros.
Valentina limpou as lágrimas com o dorso da mão, mas elas continuavam vindo, silenciosas, persistentes.
— Continue investigando. — disse.
Ele a observou com atenção.
— Isso pode envolver pessoas poderosas.
Ela levantou os olhos.
E ali não havia mais apenas dor.
Havia algo nascendo.
Algo frio.
Algo determinado.
— Quero que ache quem foi responsável pela morte dos meus pais. — disse, cada palavra firme apesar da voz embargada. — Custe o que custar. Eu pago o que for necessário.
Ela apertou a fotografia contra a mesa.
Os dedos brancos. A mão tremendo. As lágrimas ainda escorrendo.
Mas o olhar…
O olhar já não era apenas de uma filha em luto.
Era de uma mulher que acabara de descobrir que sua dor tinha um culpado.
Um raio iluminou o céu.
Por um segundo, a luz branca refletiu nas lágrimas que caíam pelo rosto dela.
— Eu quero essa pessoa na minha frente. — sussurrou.
— Sim, senhora.
A resposta do investigador veio baixa.
Valentina não disse mais nada por alguns segundos.
Apenas abriu a bolsa.
Os dedos ainda tremiam.
Ela puxou a carteira com movimentos mecânicos, como se o corpo estivesse funcionando sozinho enquanto a mente ainda estava presa às imagens espalhadas sobre a mesa minutos antes.
Ela retirou um cartão de crédito e o colocou sobre a mesa, empurrando-o lentamente na direção dele.
— Se precisar de mais recursos… — a voz saiu rouca, mas firme — este cartão está em nome de uma amiga. Não será rastreável com facilidade.
O investigador analisou o cartão por um segundo a mais do que o normal.
Depois o pegou.
— Obrigado, senhora Montenegro.
O sobrenome caiu no ar como uma lâmina silenciosa.


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