O escritório parecia maior agora que Rafael tinha saído.
Não mais poderoso.
Maior no vazio.
Augusto permaneceu alguns segundos parado, respirando pesado, o peito subindo e descendo como se ainda estivesse em guerra. A porta fechada ecoava na cabeça dele feito um insulto.
Ele precisava sair, ficar ali seria admitir derrota — e ele não fazia isso nem quando perdia.
Saiu fechando a porta com força, atravessou o corredor da ala principal da mansão Montenegro com passos duros, o maxilar travado, a raiva ainda quente demais para esfriar em silêncio. As luzes estavam baixas. A casa inteira parecia suspensa, como se soubesse que algo tinha mudado de eixo naquela noite.
Parou diante da porta do quarto de Vittória.
Não bateu.
Empurrou.
Vittória estava de costas, diante do espelho, retirando as joias com movimentos rápidos demais. O colar caiu sobre a penteadeira com um som seco quando ela percebeu a presença dele.
— Augusto, não agora—
— FOI VOCÊ.
A voz dele atravessou o quarto como um estalo.
Vittória virou devagar, o rosto já armado, o corpo inteiro em defesa. — Abaixa esse tom. Você não entra no meu quarto gritando—
— VOCÊ DESTRUIU TUDO. — ele avançou dois passos. — Tudo o que planejei durante anos.
Ela respirou fundo, como se estivesse lidando com uma criança. — Eu fiz o que precisava ser feito. Aquela mulher estava fora de controle. Ela não pode vencer–
— NÃO. — ele cortou, erguendo a mão. — Você foi estúpida. E essa sua estupidez vai nos custar caro.
Vittória estreitou os olhos. — Estupidez? Eu estava protegendo a família.
Augusto riu. Um riso curto, feio. — Você estava protegendo o seu orgulho ferido.
Ela deu um passo à frente. — Aquela garota tomou o lugar que sempre foi nosso. Sempre.
— NOSSO? — ele rosnou. — Ou SEU?
O silêncio que caiu foi pesado.
— Você mandou dopar ela — Augusto continuou, a voz mais baixa, mais perigosa. — Dentro de um evento internacional. Dentro do nome Montenegro.
Vittória abriu os braços. — Era um calmante! Eu não mandei machucar ninguém.
— VOCÊ MEXEU COM O TABULEIRO ERRADO. — ele explodiu. — Você entregou o controle do jogo direto nas mãos dele.
Ela engoliu em seco. — Rafael sempre cedeu. Sempre ajoelhou. Eu não imaginei que—
— EXATAMENTE. — Augusto cuspiu. — Você contou com o homem quebrado que eu criei.
Ele passou a mão no rosto, respirando pesado. — ele venceu porque sabe sobre o testamento, sobre as cláusulas que escondemos durante anos.
Vittória sentiu o impacto daquela frase.
— Isabella vai resolver isso. — ela tentou, a voz já menos firme. — Os Moretti—
— CAÍRAM. — ele disse, seco. — Falidos. Expostos. Presos.
O rosto dela empalideceu. — Ele não pode fazer isso.
Augusto se aproximou até ficar a poucos centímetros dela. — Pois ele teve e sabe porquê? Por que você deu munição para ele nos atacar, sua IDIOTA.
Vittória balançou a cabeça, nervosa. — Então agora a culpa é minha? Tudo?
— É. — ele respondeu, sem hesitar. — É sua, você deveria ter esperado mais quatro meses, e tudo iria acabar.
Ela riu, incrédula. — Covarde. Eu salvei sua família de ter uma falida, órfã e que de acordo com o testamento do seu pai, teria milhões.
Augusto não reagiu.
O olhar dela se encheu de algo novo. Medo.
— Por sua causa agora, ele comanda a empresa e será questão de poucas horas para a diretoria o tornar presidente, se você está satisfeita com o que fez hoje, então arque com suas consequências. — sussurrou. — Você se jogou sozinha, tanto agora quanto há dez anos e irá pagar sozinha por isso.
Vittória o olhou com raiva, suas mãos apertavam do lado do corpo.
— Tanto hoje como antes, eu salvei sua família, seu nome de cair nas mãos de mulheres como aquelas, não poderia ter deixado uma secretária sem eira nem beira se tornar uma Montenegro e agora é a mesma coisa.
O silêncio que ficou depois das últimas palavras de Augusto não trouxe alívio.
Trouxe cálculo.
Vittória respirava rápido, o peito subindo e descendo como se ainda estivesse tentando provar algo — para ele, para si mesma, para um passado que já não obedecia mais.
— Você fala como se eu tivesse errado. — ela disse, por fim, com um sorriso torto. — Mas eu fiz o que sempre fiz: consertei suas fraquezas.
Augusto permaneceu parado, os olhos fixos nela. Não havia raiva ali. Só desgaste.
— Não. — ele respondeu. — Você acelerou o fim.
Vittória riu. Um riso curto, descrente.
— Fim? — deu dois passos à frente. — Você acha mesmo que isso acabou?
Ela inclinou a cabeça, venenosa.
— Você pensa que eu vou te dar o divórcio?
Augusto franziu o cenho.
— Vittória—
— Não. — ela o interrompeu. — Escuta agora.
O olhar dela endureceu.
— Você sempre foi um inútil. Um fracassado que nem o próprio pai acreditava que chegaria a lugar algum.
Augusto cerrou o maxilar, mas não respondeu.
— Se não fosse por mim, — ela continuou — você teria sido engolido anos atrás.
Deu um sorriso cruel.
— E olha a ironia… seu pai teve a brilhante ideia de dar poder à esposa do filho mais velho.


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