Valentina acordou devagar.
Não foi um despertar brusco — foi como voltar à superfície depois de muito tempo submersa. Primeiro, o calor. Depois, o peso firme de um braço ao redor da cintura. Por fim, o cheiro inconfundível.
Rafael.
Ela respirou fundo, como se precisasse confirmar que aquilo era real.
O peito dele subia e descia de maneira controlada, constante, como se tivesse passado a noite inteira ali, acordado o suficiente para protegê-la até dormindo. O braço envolvia seu corpo com cuidado, não como quem prende, mas como quem sustenta.
Valentina se mexeu um pouco.
O aperto dele se ajustou automaticamente. Instintivo.
— Está tudo bem… — a voz dele veio baixa, rouca de quem dormiu pouco. — Estou aqui.
Ela fechou os olhos de novo por um segundo, só para absorver aquilo.
— Eu acordei você? — perguntou, num sussurro.
— Não. — Rafael respondeu. — Eu não dormi de verdade.
Ela virou o rosto devagar, apoiando a testa no peito dele. O coração batia firme. Forte. Presente.
— Obrigada… — murmurou, sem completar a frase.
Ele não pediu explicação.
A mão dele subiu para os cabelos dela, passando os dedos com calma, como se estivesse reorganizando o mundo fio por fio.
— Vamos tomar um banho. — disse. — Você vai se sentir melhor.
Valentina assentiu.
Rafael foi o primeiro a se mover. Levantou-se com cuidado para não deixá-la desequilibrar, puxou o lençol junto, envolvendo-a como se o quarto inteiro ainda fosse um território inseguro.
No banheiro, o vapor começou a subir assim que a água quente caiu.
Rafael a ajudou a entrar no box como quem conduz algo precioso. Nenhuma pressa. Nenhuma palavra desnecessária. As mãos dele retiraram o tecido com respeito quase solene.
Quando a água tocou a pele dela, Valentina soltou um suspiro que parecia guardar tudo o que não tinha conseguido sentir antes.
— Melhor? — ele perguntou.
— Um pouco. — ela respondeu. — Está… ficando tudo mais distante.
Rafael ficou atrás dela, deixando que a água escorresse pelos dois. As mãos dele pousaram em sua cintura. Não apertaram. Não exigiram.
Apenas estavam ali.
Valentina encostou as costas no peito dele, fechando os olhos.
— Eu achei que tinha feito algo errado. — confessou. — Por um momento… eu achei que tinha decepcionado você.
Rafael inclinou o rosto, encostando a testa na lateral da cabeça dela.
— Nunca. — disse. — Não confunda o mal que fizeram com culpa sua.
Ela respirou fundo, os ombros relaxando aos poucos.
As mãos dele subiram, desenhando linhas lentas pelos braços dela, pelas costas, um carinho contínuo, repetitivo, quase terapêutico.
— Eu estou bem agora. — Valentina disse, depois de um tempo. — De verdade.
Rafael assentiu, mas não se afastou.
— Mesmo assim, eu fico. — respondeu.
Depois do banho, ele a ajudou a se vestir, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Uma intimidade sem urgência. Sem teatro.
Quando desceram para o café da manhã, a casa parecia… diferente.
Silenciosa demais.
A mesa longa estava posta, mas havia menos pratos. Menos xícaras. Menos presença.
Valentina franziu a testa discretamente.
Rafael puxou a cadeira e sentou-se no lugar que sempre fora do pai. Não houve anúncio. Não houve desafio. Apenas ocupação.
Valentina percebeu.
Sentou-se em frente a ele, observando com atenção treinada — olhos de advogada, mente que não ignora detalhes.
— Seus pais não vão tomar café hoje? — perguntou, com cuidado.
Rafael serviu o próprio café antes de responder. Um gesto calmo. Controlado.
— Eles não moram mais aqui. — disse, como quem fala do clima.
Valentina ergueu os olhos.
— Não?
Ele a encarou diretamente agora.
— Essa casa foi deixada em testamento para o meu casamento. — explicou. — Achei que estava na hora de ficarmos só nós dois.
O silêncio se estendeu por alguns segundos.
Valentina analisou. As palavras. O tempo. A consequência.
Ela não sorriu. Não comemorou.
Apenas entendeu.
Soltou um suspiro baixo.
— Você pensou em tudo. — disse.
— Em você. — ele corrigiu.
Valentina pousou a mão sobre a mesa, sentindo o mármore frio sob os dedos. A casa, o silêncio, o lugar ocupado por Rafael… tudo fazia sentido demais para ser apenas impulso.
Ela levantou o olhar novamente.
— Rafael… — hesitou. — Por que sua mãe me odeia tanto?
Valentina ficou alguns segundos em silêncio depois da pergunta.


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