Rafael já estava saindo da sala quando a voz de Vittoria cortou o ar como uma lâmina polida.
— O que está acontecendo, Rafael Montenegro?
Ele parou.
Devagar.
Frio.
Como quem decide se vale a pena olhar para a pessoa que ousou questioná-lo.
Vittoria deu dois passos à frente.
O salto dela tocava o chão com elegância ensaiada — mas o olhar… era puro veneno destilado.
— Você achou mesmo… — ela começou, a voz baixa, carregada de ódio controlado — que eu não veria? Que eu não perceberia? Ela não era só um pedaço descartável… não era isso o combinado.
Rafael virou o rosto apenas o suficiente para encará-la.
— Era. — respondeu, seco. — Ainda é.
Vittoria sorriu.
Um sorriso lento, afiado, tão falso quanto joia barata.
— Eu não sou burra, Rafael. — disse, aproximando-se mais um passo, ficando frente a frente com o próprio filho, sem piscar. — Eu sou Vittoria Montenegro.
E não cheguei onde estou sendo enganada por ninguém.
Rafael não moveu um músculo.
Os dois eram idênticos naquele momento:
— a postura,
— o silêncio,
— o perigo escondido atrás dos olhos.
— O que quer, mãe? — ele perguntou, sem paciência.
Vittoria ergueu o queixo.
— Quero que se livre desse fardo. — disse, como se falasse sobre lixo. — Quero que anule essa farsa e se case com Isabella. Como deveria ter sido desde o início.
Rafael deu um passo à frente.
Eles ficaram tão perto que até a tensão parecia respirar entre eles.
Vittoria não recuou.
Não era do tipo que recua.
Nunca foi.
Cobra encarando dragão.
— Não posso. — Rafael respondeu, firme. — Separar-me com menos de uma semana de casado chamaria atenção demais. Os investidores estão olhando para mim.
E já conhecem Valentina como minha esposa.
Vittoria estreitou os olhos.
— Você vai jogar fora um casamento que seria perfeito? Isabella tem sobrenome, tem classe, tem presença, tem—
— — Eu vou fechar um contrato bilionário. — Rafael a interrompeu, seco como um tiro. — E não vou perder isso por sua nostalgia ou capricho.
O veneno no ar ficou mais denso.
Vittoria respirou fundo — longa, silenciosamente — antes de soltar:
— Essa menina vai afundar você. Vai destruir tudo que construímos.
Rafael chegou mais perto ainda.
Os olhos cinzentos eram puro aço.
— Então sugiro que deixe ela em paz.
O tom não foi alto.
Foi pior.
Baixo, firme, definitivo.
— E não se atreva a tocar nela outra vez.
Nem direta…
nem indiretamente.
Vittoria arqueou uma sobrancelha.
— Isso é uma ameaça?
Rafael deu dois passos para trás.
Pois isso era mais assustador vindo de longe.
— Não, mãe. — disse, sem expressão. — É apenas um aviso.
Ele se virou para sair.
A raiva nela saltou do peito como labareda.
— Você está mudando, Rafael! — ela disparou. — Por causa dela!
Ele parou na porta.
Não olhou para trás.
— Eu não mudo. — respondeu. — Eu só não perdoo.
Fechou a porta.
Vittoria ficou imóvel por dois segundos — só dois — até a fúria tomar o corpo inteiro.
Ela girou, caminhou até a mesa lateral e, com um gesto seco, atirou um vaso de porcelana italiana no chão.
A peça se estilhaçou em centenas de pedaços.
Clara apareceu no corredor quase no mesmo instante — como se tivesse sido convocada pelo cheiro de caos.
Vittoria ergueu os olhos devagar.
Clara não ousou respirar.
— Mande limpar isso. — Vittoria disse, fria.
— Sim, senhora. — Clara respondeu, quase curvada.
Vittoria deu um passo na direção dela.
Os olhos agora tinham outra chama:
ódio… e diversão.
— Clara.
— Senhora?
Um sorriso fino, venenoso, rasgou o rosto da matriarca.
— Conto com você para fazer da vida de Valentina um inferno.
Moreira e Vieira saíram como se corressem de um incêndio.
A sala ficou só com Rafael… e Lucas.
— Só uma pergunta. — Lucas disse, encarando o teto, como se calculasse: — Quando você fala “no chão”, é no chão tipo “vergonha pública”, ou chão tipo “encerramos as atividades e vendemos até o carpete”?
Rafael finalmente sentou atrás da mesa.
— Os dois.
— Ah. — Lucas suspirou. — Entendi. A versão completa. O kit inferno.
Ele levantou.
— Vou trabalhar antes que você me coloque no mesmo pacote que o Avelar.
Quando chegou na porta, parou.
— E só pra registro… — ele disse, coçando a sobrancelha. — A Bianca me mordeu. Literalmente.
Disse que eu era um “gatinho manhoso” e que adorava o sabor de homens problemáticos.
Rafael não reagiu.
Lucas ergueu as mãos.
— É isso. Boa sorte com os demônios pessoais.
Saiu.
A porta se fechou.
A sala ficou em silêncio — mas não um silêncio vazio.
Um silêncio cheio demais.
Rafael apoiou as mãos na mesa.
Deu um longo suspiro…
e imediatamente odiou o fato de ter suspirado.
A imagem de Valentina no chão, tentando não chorar…
a marca vermelha no rosto dela…
os olhos dizendo eu sou a vítima aqui…
tudo isso bateu nele como um golpe que ele nunca admitiria sentir.
Ele pegou a caneta.
Girou uma vez.
Duas.
Três.
E quando a lembrança do toque de Fernando na pele dela atravessou sua mente—
CRACK.
A caneta quebrou no meio.
A tinta vermelha escorreu entre os dedos dele como sangue.
Rafael olhou para a própria mão suja.
E murmurou, tão baixo que nem o ar ouviu direito:
— Ninguém toca no que é meu. Ninguém.

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