A Montenegro Corp não precisava anunciar nada naquela manhã.
O prédio inteiro já sabia.
Desde o hall principal, o clima era outro. Menos ruído. Menos pressa. Olhares atentos demais para serem curiosos. Funcionários que endireitavam a postura antes mesmo de Rafael passar. Não por medo — por reconhecimento.
Rafael atravessou as portas giratórias com Moreira a meio passo atrás, como sempre.
— A diretoria já está reunida. — informou em tom baixo, profissional. — Todos presentes, senhor.
Rafael assentiu uma única vez.
O elevador executivo subiu em silêncio absoluto. Nenhum dos dois falou. Não era tensão. Era foco.
As portas da sala de reuniões se abriram assim que chegaram.
A diretoria da Montenegro Corp já os aguardava.
Homens e mulheres que raramente se levantavam para alguém — levantaram.
Não houve aplausos.
Houve respeito.
— Senhor Montenegro. — começou o presidente do conselho, após Rafael tomar seu lugar à cabeceira. — O contrato com o grupo Yamamoto reposicionou a empresa em um patamar que vínhamos planejando há anos… mas que poucos acreditavam ser possível nesse tempo.
Outro diretor complementou:
— A repercussão foi imediata. Não apenas no mercado asiático. Fundos europeus já sinalizaram interesse. A Montenegro deixou de ser observada. Passou a ser acompanhada.
Rafael ouviu sem interromper. As mãos apoiadas na mesa. O olhar firme, atento, sem qualquer traço de vaidade.
— A condução da negociação foi… — uma das conselheiras hesitou, escolhendo bem as palavras — cirúrgica.
Moreira deslizou um tablet à frente de Rafael no momento exato. Gráficos. Projeções. Números que não mentiam.
— Entramos em um novo cenário global. — continuou o presidente. — E isso muda tudo.
Rafael ergueu o olhar.
— Não muda tudo. — corrigiu, com calma. — Amplia.
O silêncio que se seguiu foi denso. Concordante.
— A abertura internacional de capital está sendo tratada como consequência natural. — disse outro membro. — Mas sabemos que nada aqui foi improvisado.
— Não foi. — Rafael confirmou. — Cada etapa foi pensada para não expor a empresa antes da hora.
— O conselho está alinhado. — afirmou o presidente. — E reconhece sua liderança nesse processo.
Rafael assentiu, breve.
— Reconhecimento não sustenta impérios. — disse. — Execução, sim.
A reunião avançou com relatórios, cronogramas e decisões objetivas. Nada de discursos longos. Nada de celebração vazia. Quando terminou, havia consenso. E direção.
Rafael se levantou primeiro.
— Moreira. — disse, já caminhando para a porta.
— Já encaminho os ajustes. — respondeu ele de imediato.
Ao saírem da sala, o corredor executivo parecia ainda mais silencioso. Rafael caminhava à frente, os passos firmes, a mente já no próximo movimento.
Parou diante da porta de seu escritório. O corredor já estava vazio.
Ele ergueu o olhar.
Lucas estava ali.
Rafael manteve o rosto neutro. Apenas tocou a maçaneta.
— Moreira… — disse, sem olhar para trás.
— Fico por aqui. — respondeu ele, já entendendo.
Rafael abriu a porta do escritório sem diminuir o passo.
Lucas lá dentro estava encostado na mesa lateral, braços cruzados, o olhar atento demais para ser casual.
Moreira entrou logo atrás, deixou a pasta sobre a mesa principal e se afastou em silêncio.
A porta se fechou.
E Rafael soube, sem precisar de palavras, que aquela conversa não seria sobre números.
Rafael soltou o ar devagar e afrouxou o nó da gravata.
— Foi limpo? — Lucas comentou. — O conselho comprou tudo?
— Sim — Rafael respondeu, tirando o paletó e colocando-o com precisão sobre a cadeira. — Nada ali foi improviso.
Lucas o observou por alguns segundos antes de falar de novo.
— Exceto o timing.
Rafael ergueu o olhar.
— Você antecipou a Fênix. — Lucas continuou. — Isso não estava no plano original.
Rafael caminhou até a mesa, apoiou as mãos na madeira escura e ficou de frente para ele.
— Porque mudei algumas variáveis.
Lucas não sorriu. Não provocou. Apenas inclinou levemente a cabeça.


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