Valentina se levantou devagar e seguiu pelo corredor estreito do jato até o banheiro.
O espaço era pequeno, funcional — como tudo ali. Fechou a porta atrás de si e apoiou as mãos na pia, respirando fundo.
Precisava de um minuto só dela.
Água fria nas mãos. Um olhar rápido no espelho. Nenhuma lágrima. Nenhum drama. Só aquela sensação incômoda de coisas não resolvidas ocupando espaço demais no peito.
Quando saiu, quase esbarrou nele.
Rafael estava encostado na parede do corredor, braços cruzados, expressão fechada demais para ser casual. O espaço apertado tornava impossível fingir que ele não estava ali.
Valentina se assustou um pouco — mais pela presença do que pela surpresa.
— Rafael… — começou.
Ele não respondeu. Apenas segurou a mão dela com firmeza e a puxou para o compartimento ao lado, separado do restante da cabine por uma cortina espessa.
— Precisamos conversar. — disse baixo.
— Não precisamos, seu louco. — ela retrucou, tentando soltar a mão. — Me larga.
Ele não largou.
— Precisamos, sim.
O espaço era pequeno, mas confortável. Um sofá-cama ocupava quase tudo. A cortina abafava os sons do restante do jato — Bianca e Lucas estavam do outro lado, próximos demais para qualquer exagero… longe o suficiente para intimidade contida.
Valentina cruzou os braços.
— Fala. — disse. — Rápido.
Rafael respirou fundo uma vez só.
— Ontem eu voltei tarde. — começou. — Você dormia tão pacífica que eu não tive coragem de te acordar.
Ela desviou o olhar.
— Não me importo com isso. — respondeu. — E agradeço. Eu estava cansada.
Ia passar por ele.
Rafael a puxou de novo.
O movimento foi rápido demais para ela reagir como queria. Valentina perdeu o equilíbrio por um segundo — e caiu sentada sobre ele no sofá-cama, as pernas de cada lado, o corpo suspenso pelo susto.
O mundo parou.
Os dois ficaram imóveis por um instante, os rostos próximos demais, a respiração desalinhada.
Valentina apoiou as mãos no peito dele, pronta para se levantar.
— Rafael—
Ele segurou a cintura dela, impedindo o movimento.
— Shii, me deixa te sentir — pediu, baixo. Não como ordem. Como necessidade.
Ela hesitou.
O olhar deles se prendeu. Não havia ironia ali. Nem defesa. Só aquilo que vinha se acumulando desde a noite anterior — silêncio, distância, coisas não ditas.
Valentina respirou fundo.
— Por favor… podemos ficar como estamos.
— Não. Eu não quero.
Ela ia retrucar.
Não conseguiu.
Rafael a beijou.
O beijo não foi delicado. Nem apressado. Foi cheio. Firme. Intenso. Como se o desejo tivesse ficado contido tempo demais e agora exigisse espaço.
Valentina levou meio segundo para resistir.
Depois desistiu.
As mãos dela subiram para a nuca dele. O corpo relaxou sem pedir permissão à razão. O beijo aprofundou, carregado daquela urgência silenciosa que não precisava de palavras.
Rafael apertou a cintura dela com mais força, como se quisesse garantir que ela ainda estava ali. Que não ia desaparecer naquele silêncio estranho que tinha se instalado entre eles.
Quando se afastaram, os dois estavam ofegantes.
A testa dela encostou na dele.

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