O jato já havia atingido altitude de cruzeiro quando Bianca começou a estranhar.
Não foi nada óbvio.
Nada escandaloso.
Foi o tipo de percepção que só alguém que conhece bem demais outra pessoa consegue ter.
Valentina estava… diferente.
Sentada ao lado da janela, um copo de suco nas mãos, o olhar perdido no nada como se estivesse observando algo muito além das nuvens. Não estava triste. Não estava nervosa. Estava quieta demais.
Bianca inclinou-se lentamente, como quem vai comentar algo trivial sobre o voo, e cochichou:
— O que tá acontecendo entre você e ele?
Valentina não respondeu de imediato. Apenas abaixou o olhar, girando o copo entre os dedos.
Do outro lado do corredor, Rafael falava baixo com Lucas, mas lançou um olhar rápido na direção delas — rápido demais para parecer curiosidade, atento demais para ser coincidência.
Valentina percebeu.
— Estamos indo. — respondeu enfim, em voz baixa. — Não bem. Nem ruim. Só… indo.
Bianca franziu o cenho.
— “Indo” não é resposta, Val. — murmurou. — Isso é estado de gente que tá engolindo coisa demais.
Fez uma pausa curta, avaliando.
— Tá. — continuou. — Fala. Ele fez alguma coisa?
Valentina soltou um ar curto pelo nariz, quase um riso sem humor.
— O pior é que não. — disse. — Mas também não fez.
Bianca virou lentamente o rosto, observando Rafael como quem analisa um eletrodoméstico defeituoso.
— Um freezer. — concluiu. — Você esperava o quê?
Valentina levou o copo à boca… e engasgou.
Começou a rir, tentando conter o som, a mão cobrindo os lábios.
— Bianca… — murmurou, entre risos. — Pelo amor de Deus.
— O quê? — Bianca rebateu, séria demais para estar brincando. — Ele é lindo, poderoso e emocionalmente congelado. Isso não é crítica, é descrição técnica.
Valentina respirou fundo, recuperando o controle.
Bianca, então, baixou ainda mais a voz.
— Mas ó… — disse. — Eu tô achando que sei o que aconteceu.
Valentina a olhou.
— O Conde Vlad saiu da Transilvânia sem a Mortícia pra ir até o Japão. — Bianca continuou. — E eu tenho certeza absoluta de que não foi pra parabenizar o filhinho querido.
Valentina fechou os olhos por um segundo.
Depois, sussurrou:
— Ele me pagou.
Bianca congelou.
— Como é que é?
— O pai dele. — Valentina continuou, a voz baixa, controlada. — Me pagou pra nunca mais me aproximar do filho dele. Pra eu lembrar qual é o meu lugar. De esposa temporária.
O silêncio entre as duas foi imediato.
Bianca não disse nada por alguns segundos. Apenas ficou ali, olhando para frente, o maxilar travado, o copo intocado na mão.
Então se levantou bruscamente.
— Eu vou dar na cara dele.
Valentina reagiu no reflexo, segurando o braço da amiga.
— Bianca. — sibilou. — Cala a boca.
— Não, eu vou—
— Cala. A. Boca.
Bianca havia se exaltado o suficiente para chamar atenção.
Rafael olhou.
Lucas também.
Bianca percebeu no mesmo instante.
Endireitou a postura, abriu um sorriso largo e absolutamente falso.
— Desculpa. — disse alto demais. — Acho que vi um rato.
Fez um gesto vago com a mão.
— Não se preocupem. É normal em voos longos.
Lucas fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.
Rafael apenas voltou o olhar para a frente, expressão neutra, mas o corpo atento.


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