Valentina acordou com a sensação errada.
Primeiro, o calor.
Depois, o peso firme ao redor da cintura.
E, por fim, o cheiro.
Ela abriu os olhos devagar.
Não estava na poltrona.
Não estava ao lado de Bianca.
Estava nos braços de Rafael.
Piscou uma vez.
Duas.
Tentou se afastar no mesmo instante.
— Me solta. — murmurou, ainda rouca de sono.
O braço dele se apertou levemente, firme o bastante para impedir, cuidadoso o suficiente para não parecer força.
— Não. — ele respondeu, a voz baixa, preguiçosa. — Ainda temos mais uma hora de voo.
Ela bufou, irritada.
— Eu não quero mais dormir.
Rafael sorriu sem abrir os olhos.
— Quer.
Valentina tentou se levantar de novo. Inútil. Ele a puxou mais para perto, prendendo-a contra o peito.
— Rafael…
— Shh.
Ela ficou tensa. Irritada. O coração acelerado demais para alguém que só tinha acabado de acordar.
— Você é insuportável. — sussurrou.
— Eu sei. — ele respondeu. — Mas funciona.
Ela ia retrucar.
Não teve tempo.
Rafael inclinou o rosto e a beijou.
Não foi um beijo rápido.
Nem gentil demais.
Foi longo. Profundo. Carregado de tudo o que eles vinham segurando desde o Japão.
Valentina levou um segundo para resistir.
Depois… não resistiu mais.
A mão dela subiu para o rosto dele. O corpo respondeu antes da razão. O beijo ficou mais intenso, mais quente, mais perigoso. O mundo reduziu ao espaço entre os dois, ao toque, à respiração descompassada.
Ela esqueceu onde estava.
Esqueceu o avião.
Esqueceu o Brasil.
Até a voz metálica do piloto cortar o ar:
— Senhores passageiros, dentro de alguns minutos iniciaremos o procedimento de pouso em São Paulo…
Valentina congelou.
Piscou.
Afastou-se bruscamente, o coração disparado, o corpo ainda tremendo.
— Meu Deus… — murmurou, passando a mão pelo cabelo. — O que foi isso?
Rafael sorriu, encostando a cabeça no encosto, absolutamente calmo por fora… e nada calmo por dentro.
— Bom dia. — disse.
Ela lançou um olhar mortal.
— Eu vou ao banheiro.
Levantou rápido demais, quase tropeçando, e desapareceu pelo corredor.
Rafael ficou ali, respirando fundo, passando a mão pelo rosto uma única vez.
Quando Valentina voltou, já recomposta, postura impecável, expressão neutra, foi direto para onde Bianca estava.
E congelou.
Bianca estava sentada no colo de Lucas.
Muito confortável.
Muito encaixada.
Valentina arqueou a sobrancelha.
— Bom dia… — Bianca disse rápido demais, levantando num pulo e ficando vermelha até a raiz do cabelo.
Lucas fechou os olhos por um segundo.
— Bom dia. — disse, contido.
Valentina sorriu. Um sorriso lento. Perigoso.
— Que… bonito. — comentou.
Bianca pigarreou, sentando-se corretamente.
— Turbulência emocional. — justificou. — Normal em voos longos.
Rafael se aproximou, sentando ao lado de Lucas.
Lucas virou o rosto para ele, sério.
— Poderíamos ter dormido mais alguns minutos. — murmurou.
Bianca suspirou fundo, teatral.
— Alguns minutos que mudam vidas…
Valentina riu baixo, finalmente mais leve.
— Bom dia pra você também, Lucas.
Ele revirou os olhos.
— Bom dia. — respondeu. — E não, Rafael não é um bom amigo.
Rafael apenas sorriu.


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