O carro deixou a casa Yamamoto com a mesma elegância com que tudo ali acontecia: sem pressa, sem barulho, sem despedidas teatrais.
Valentina olhou pela janela enquanto o portão se fechava atrás deles, e por um segundo teve a sensação de que o Japão tinha sido um capítulo escrito com tinta fina demais — bonito demais para ser leve, silencioso demais para ser inocente.
Rafael estava ao lado dela no banco traseiro. Impecável. Fechado. A gravata no lugar. O rosto sem sinais da noite anterior, como se ele tivesse guardado o homem do sofá em uma gaveta e trancado com chave.
Ela não perguntou se ele dormiu. Ele não explicou por que não voltou para a cama.
Os dois estavam no mesmo espaço… e em mundos diferentes. Moreira notou o frio entre eles e suspirou fundo.
O motorista manteve o silêncio. As ruas de Tóquio corriam lá fora como linhas retas, ordenadas, disciplinadas. Valentina achou irônico: por dentro, nada nela estava em ordem.
Ela segurou a bolsa com mais força do que precisava. O envelope no fundo parecia pesar como uma pedra, mesmo sem tocar sua pele. Ela não iria pensar nele agora.
Não ainda.
O carro entrou em um acesso reservado, cercado por segurança discreta e placas que não anunciavam nada a quem não tivesse permissão. Um portão. Um corredor de concreto. Luzes brancas. Tudo rápido, limpo.
Valentina franziu a testa.
— Nós não vamos para o aeroporto comum, né? — perguntou, mais para confirmar do que por dúvida real.
Rafael não tirou os olhos da frente.
— Não.
A resposta curta veio com a naturalidade de quem considerava “óbvio” aquilo que para o resto do mundo seria sonho.
O carro parou.
Do lado de fora, havia um pequeno terminal privado, discreto, eficiente. Um funcionário já aguardava, postura impecável, rádio no ouvido, e duas pessoas com crachás que pareciam pertencer a um outro tipo de realidade.
Valentina desceu do carro e olhou ao redor. O ar era diferente ali. Cheiro de combustível. Metal. E aquela sensação estranha de que o mundo funciona com outra velocidade quando você tem dinheiro suficiente pra dobrar o tempo.
— Nós vamos de avião? — ela soltou, antes de se controlar.
Rafael pegou a mala dela com a mesma calma com que pegaria um documento.
— Vamos. — fez uma pausa mínima. — No jato particular da família.
Valentina abriu a boca, pronta para falar alguma ironia… e congelou.
Porque, do outro lado do hall, alguém estava literalmente fazendo sinais com os dois braços no ar como se estivesse tentando guiar um avião maior do que a dignidade.
Bianca.
Valentina soltou um riso baixo que escapou antes que ela pudesse esconder.
— Ela… — murmurou. — um dia, me mata...
Bianca viu.
E veio.
Correndo.
Com energia, com drama, com alegria e uma falta total de vergonha que fazia Valentina sentir uma inveja secreta e muito inconveniente.
— BOM DIA, SENHORA MONTENEGRO! — Bianca anunciou alto demais para o lugar, mas baixo o suficiente para ainda parecer “educada” dentro da cabeça maluca dela.
Valentina revirou os olhos no reflexo mais automático do universo.
— Bianca… pelo amor de Deus…
Bianca parou na frente dela, sorrindo com a cara de quem tinha acabado de ganhar na loteria emocional.
— Olha você, toda internacional. Toda global. Toda “minha amiga agora faz parte do top 1% das fofocas do planeta”. — ela apontou para o chão como se fosse um palco. — Pisa com calma, tá? Porque isso aqui é território de gente que manda matar reputação com um " Suma com ela do mapa".
Valentina engoliu o riso, mas perdeu. Riu.
Rafael ficou imóvel por um segundo, observando aquela cena como quem avalia uma tempestade entrando numa sala de vidro.
Lucas apareceu logo atrás, calmíssimo, como se fosse o corpo de bombeiros designado para viver ao lado de Bianca.
— Bom dia. — ele disse para Valentina, educado, contido.
— Bom dia— Valentina respondeu, sincera. — Obrigada por terem ficado.
Bianca levantou o dedo, interrompendo.
— “Ficaram” é ótimo. — ela disse, indignada. — Eu fiquei foi presa, porque alguém… — ela olhou para Rafael como quem aponta para um deus pagão perigoso — mandou a gente ficar. E eu obedeci porque, né…, respeito e curiosidade.
Rafael não reagiu. Só soltou uma frase, neutra:
— Era mais seguro irmos todos juntos.
Bianca abriu os braços.
— Aí, ai… ser rico deve ser tão bom.
Valentina arqueou a sobrancelha.

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