Valentina voltou ao salão com o mesmo porte de antes. O sorriso social estava ali, perfeitamente ajustado. Conversou quando foi abordada, respondeu com educação, fez comentários breves, precisos. Nada fora do tom. Nada que chamasse atenção.
Mas algo havia mudado.
Rafael percebeu quase de imediato.
Não foi um gesto específico. Nem uma frase fora do lugar. Foi a ausência de pequenas coisas: o toque discreto no braço dele quando se aproximava, o olhar cúmplice atravessando o salão, aquela presença silenciosa que antes sustentava — agora apenas ocupava.
Valentina estava ali.
Mas não estava com ele.
Rafael tentou puxar conversa em um intervalo entre cumprimentos.
— Está tudo bem? — perguntou baixo, mantendo o sorriso público.
— Está. — ela respondeu. Simples. Correta. Final.
Ele assentiu, mas o alerta já tinha sido acionado.
Quando o evento começou a se dissolver em despedidas e promessas futuras, Rafael colocou a mão na lombar de Valentina para guiá-la até a saída. O gesto foi automático.
Ela não recuou.
Mas também não se inclinou em resposta.
No carro, o silêncio se instalou de vez.
A cidade passava do lado de fora, iluminada demais para aquele clima. Rafael soltou o nó da gravata, respirou fundo e, depois de alguns minutos, estendeu a mão em direção à dela.
Valentina afastou os dedos antes do contato.
Não de forma brusca.
Definitiva.
Rafael virou o rosto para ela no mesmo instante.
— Valentina…
— Estou cansada. — ela disse, olhando para frente. — Foi um dia longo.
Não havia aspereza na voz.
Isso era o que mais incomodava.
Ele assentiu, respeitando — ou fingindo respeitar — aquele limite repentino. O resto do trajeto seguiu em silêncio absoluto.
Na chegada à mansão Yamamoto, Valentina desceu primeiro. Agradeceu aos funcionários com um aceno educado, caminhou pelo corredor sem esperar por Rafael. Ele a acompanhou com o olhar, sentindo algo escapar do controle sem conseguir nomear o quê.
Ela não olhou para trás.
Entrou no quarto, deixou a bolsa sobre a poltrona e seguiu direto para o banheiro, como se ele não estivesse ali. Rafael deu dois passos em sua direção, pronto para segui-la.
O telefone vibrou no bolso do paletó.
Ele fechou os olhos por um segundo antes de atender.
— Fale. — disse, já sabendo.
A voz de Augusto veio seca, direta, sem rodeios.
— Te espero no hotel. — disse. — Meia hora.
Rafael bufou baixo, passando a mão pelo rosto.
— Agora? — perguntou.
— Agora. — Augusto respondeu. E desligou.
Rafael ficou parado no meio do quarto por alguns segundos, o celular ainda na mão.
Algo tinha acontecido.
Ele sabia.
E não tinha sido pequeno.
Olhou na direção da porta do banheiro, fechada. Valentina continuava lá dentro, isolada — não por distância física, mas por escolha.
Rafael respirou fundo.
Vestiu novamente o homem que precisava ser.
Mas, enquanto ajustava o paletó, uma certeza se formou com clareza desconfortável:
Se Augusto Montenegro estava envolvido…
aquele silêncio de Valentina não era cansaço.
O hotel estava mergulhado num silêncio elegante demais para ser confortável.
Rafael atravessou o lobby sem desacelerar o passo. Não olhou ao redor. Não precisava. Sabia exatamente onde o pai estaria.
A porta da suíte estava entreaberta.
O cheiro de charuto veio antes da voz.
Augusto Montenegro estava de pé, próximo à janela, observando a cidade como quem observa um tabuleiro já conhecido. O paletó aberto, o charuto entre os dedos, a postura relaxada demais para alguém que acabara de vencer.
— Boa jogada. — disse, sem se virar. — Abrimos capital e ultrapassamos um trilhão e meio em menos de cinco horas.
VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário