O dia passou sem pressa — e sem pausa.
Rafael ocupou a sala da ala desde as primeiras horas da manhã. Reunião após reunião, chamadas em sequência, documentos espalhados sobre a mesa baixa. O espaço, parecia respirar no ritmo dele: foco, controle, comandos.
Valentina sabia que hoje era um dia muito importante, sabia que Rafael Montenegro não sairia do seu personagem de CEO imponente e comprometido com sua empresa.
Ela seguiu o próprio ritmo.
Saiu do quarto, caminhou pela casa, demorou-se nos jardins internos, onde a luz parecia sempre mais suave. O almoço foi servido no jardim interno, onde a luz do Japão parecia sempre mais delicada. Akemi e Hana a aguardavam com sorrisos que já não carregavam reservas — apenas aquela cordialidade que nasce quando a convivência vence o estranhamento.
— Você dormiu bem? — Hana perguntou, enquanto se sentavam.
Valentina sorriu. — Melhor do que imaginei.
Akemi observou por cima da xícara de chá. — Isso é bom. Noites importantes exigem descanso.
Não havia tensão ali. Nem frieza. Também não havia intimidade forçada. Era algo diferente — um meio-termo confortável, quase cúmplice. Elas não eram amigas no sentido ocidental da palavra. Mas já não eram estranhas. E, naquele contexto, isso significava muito.
A conversa seguiu leve.
Akemi falou sobre uma exposição recente em Kyoto, sobre uma peça de música tradicional reinterpretada com instrumentos modernos. Valentina ouviu com atenção genuína, comentando sobre como a arte sempre encontrava formas de sobreviver às épocas.
Hana observou o vestido de Valentina com atenção genuína, os dedos tocando de leve o tecido como quem avalia mais do que aparência.
— Corte limpo. — comentou. — Você escolhe bem. Não é comum.
Valentina sorriu, tranquila.
— Sempre gostei do corte reto do Valentino. — respondeu. — Ele consegue ser clássico sem ficar previsível. Elegância sem precisar disputar atenção.
Hana abriu um sorriso imediato, interessada.
— Faz sentido. — disse. — Ele entende proporção. Silêncio bem colocado.
Akemi observava em silêncio, satisfeita com a troca.
— No Japão, quem trabalha isso muito bem é o Issey Miyake. — Hana continuou. — Ele atravessou gerações sem perder identidade. Estrutura, leveza… nada grita, mas tudo permanece.
Valentina inclinou levemente a cabeça, genuinamente interessada.
— Gosto disso. — disse. — Quando a roupa não precisa provar nada.
Hana sorriu.
— Vou abrir meu leque de opções. — comentou, satisfeita. — Obrigada pela dica.
Valentina retribuiu o sorriso.
A assinatura do contrato surgiu naturalmente na conversa. Sem peso. Sem dramatização. Apenas como o evento que coroaria dias de preparação.
— Os jornalistas estarão atentos. — Akemi disse.
Valentina assentiu. — Eu sei, o nome Montenegro era falado no meu país, agora abrimos outro patamar. Hana e Akemi assentaram, elevar status era para poucos e os Montenegro conseguiram.
No meio da tarde, Rafael saiu com Moreira para compromissos externos. Últimos alinhamentos. A casa mudou de ritmo quando o carro deixou o pátio.
O dia cedeu espaço à noite.
Valentina estava no quarto quando chegaram os cuidados prometidos por Akemi e Hana. Um cabeleireiro. Uma maquiadora. Discretos. Precisos. Nada exagerado. Nada teatral.
Enquanto mãos experientes trabalhavam em silêncio organizado, Valentina se observava no espelho. Não havia nervosismo. Nem ansiedade. Apenas consciência.
Quando Rafael entrou no quarto, a primeira coisa que viu foi o reflexo dela no espelho.
Valentina ainda estava sentada diante da penteadeira improvisada, enquanto mãos habilidosas finalizavam a maquiagem com movimentos leves, quase cerimoniais. O rosto já estava pronto — nada excessivo, nada teatral. Apenas o suficiente para realçar o que nela nunca precisou de ajuda.
Ela percebeu a presença dele antes mesmo de olhar diretamente. Seus olhos encontraram os dele pelo espelho.
Rafael sorriu.
Não foi largo. Não foi exibido. Foi aquele sorriso curto, íntimo, que não pedia resposta — mas recebeu.
Valentina devolveu o gesto, discreta, tranquila, como se aquele momento fosse apenas mais um entre tantos silenciosos que vinham se acumulando entre eles.
Sem dizer nada, Rafael passou por trás dela e entrou no banheiro.
O som da porta se fechando foi suave. Logo depois, a água começou a correr.
Valentina permaneceu ali, imóvel por alguns segundos, observando o próprio reflexo enquanto os últimos ajustes eram feitos. Quando ficou sozinha, levantou-se devagar, ainda sem se vestir, sentindo o quarto mudar de atmosfera à medida que o tempo avançava.
Rafael saiu do banheiro alguns minutos depois.
Já estava parcialmente arrumado — camisa branca impecável, paletó ainda aberto, o cabelo úmido, arrumado com menos rigidez do que o habitual. O homem que surgia ali não era o CEO em plena armadura, mas também não era o mesmo da cama.
Ele a observou.

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