Valentina acordou antes de abrir os olhos.
O primeiro sinal foi o peso quente ao seu lado.
O segundo, o braço firme atravessado sobre sua cintura, puxando-a para trás como se, mesmo dormindo, alguém tivesse decidido que ela não iria a lugar nenhum.
Ela franziu o cenho devagar.
— Claro… — murmurou, ainda com os olhos fechados. — Óbvio que aconteceu de novo.
Tentou se mexer um pouco, apenas para confirmar a teoria. O movimento foi mínimo, mas suficiente para sentir o corpo reclamar — aquela mistura deliciosa de cansaço e memória que não deixava mentir.
— Eu disse que não ia acontecer. — continuou, baixinho, quase se repreendendo. — Disse com todas as letras…
Abriu um olho. Depois o outro.
Rafael Montenegro dormia ao lado dela.
De lado, o rosto relaxado de um jeito raro, a respiração tranquila demais para alguém que normalmente parecia sempre em guerra com o mundo. O cabelo levemente bagunçado, a barba por fazer desenhando sombras no maxilar forte.
Bonito demais para alguém que não tinha o menor direito de ser.
Valentina suspirou.
— E olha só você aqui… — murmurou. — Eu claramente não aprendo.
— Aprende, sim. — a voz dele veio baixa, ainda carregada de sono. — Só escolhe ignorar.
Ela congelou por meio segundo.
Depois virou o rosto, encontrando os olhos castanhos já abertos, atentos, divertidos.
— Você estava acordado? — perguntou.
— Sim — respondeu, um canto da boca se erguendo. — Bom dia, senhora Montenegro.
Valentina ficou olhando para ele por alguns segundos. Longos demais para serem casuais. Curiosos demais para serem neutros.
— Bom dia, senhor Montenegro. — respondeu, finalmente, o tom carregado de uma ironia suave que não escondia o sorriso.
Ela começou a se apoiar no colchão para levantar.
Não chegou longe.
Rafael se moveu rápido, prendendo-a novamente com o próprio corpo, uma mão firme acima da cabeça dela, a outra segurando sua cintura com naturalidade perigosa.
— Onde pensa que vai? — perguntou, a voz ainda rouca.
— Ao banheiro. — respondeu, sincera.
Ele inclinou-se, os rostos próximos demais para qualquer argumento funcionar.
E a beijou.
Não foi um beijo urgente.
Foi lento, profundo, daquele tipo que não pede licença porque já sabe a resposta.
Valentina tentou protestar — tentou mesmo — mas a boca dele desarmava qualquer tentativa de lucidez. Quando Rafael se afastou, foi apenas o suficiente para falar:
— Temos uma noite longa hoje. — disse. — Dorme mais um pouco.
Ela o encarou, respirando fundo, sentindo o corpo inteiro discordar da parte racional da mente.
— Preciso mesmo ir ao banheiro. — insistiu, com um sorriso.
Rafael a observou por mais um segundo. Depois se afastou, rolando para o lado com um suspiro controlado.
— Vá. — concedeu. — Antes que eu mude de ideia.
Valentina saiu da cama devagar, sentindo o lençol abandonar a pele quente. Caminhou até o banheiro ainda meio sonolenta, fechando a porta atrás de si.
Foi só então que se olhou no espelho.
E parou.
Havia marcas.
No pescoço. Nos ombros. Na curva suave entre o colo e o braço. Pequenas, discretas demais para serem escândalo — evidentes demais para serem ignoradas.
Ela inclinou a cabeça, analisando o próprio reflexo.
— Ele virou um canibal… — murmurou, incrédula.
Suspirou fundo, apoiando as mãos na pia.
Fez o que precisava fazer, escovou os dentes, deixou a água quente cair sobre os ombros, tentando organizar pensamentos que claramente não estavam interessados em cooperação.
Quando saiu do banho, enrolada na toalha, o quarto parecia diferente.
Rafael estava sentado na beira da cama, já vestido parcialmente, o celular no ouvido. A postura havia mudado. Ombros alinhados. Expressão concentrada.
O CEO tinha voltado.
— Não. — dizia em inglês, a voz firme. — Quero isso ajustado antes do fim do dia. Sem margem de erro.
Valentina foi até o closet e começou a se vestir em silêncio. Escolheu um vestido simples, elegante, sem pensar muito.
Rafael falava, delegava, decidia. Mas observava.
Cada movimento dela.
O jeito como levantava os braços.
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