A viagem até a mansão Montenegro foi feita em silêncio.
Um silêncio que não era confortável.
Nem tenso.
Era… algo entre os dois, pulsando no ar do carro como um segredo que ninguém tinha coragem de nomear.
Valentina dormia no colo de Rafael — rendida, entregue, o rosto afundado contra o peito dele como se aquele fosse o único lugar seguro depois de tanto caos.
E talvez fosse.
Quando os portões de ferro se abriram, as luzes externas iluminaram o interior do carro por um segundo.
Rafael abaixou os olhos para ela.
A mão dela ainda segurava, fraca e trêmula, o colarinho da camisa dele.
Ela não queria soltá-lo.
O motorista estacionou diante da entrada principal. Desceu rápido, abriu a porta traseira — e congelou na hora.
Era impossível não congelar.
Rafael Montenegro com uma mulher no colo?
— S-senhor… quer que eu a leve? — o motorista arriscou, a voz baixa.
Rafael ergueu o rosto devagar.
Um olhar bastou.
— Não. — disse, frio. — Abra caminho.
O homem recuou como se tivesse visto um fantasma.
Rafael saiu do carro com Valentina nos braços — sem pressa, sem hesitação, sem permitir que mais ninguém se aproximasse.
O peso dela era leve, mas o impacto emocional… não era.
O ar noturno tocou a pele dela, e Valentina murmurou algo inaudível, aninhando-se mais contra ele.
Rafael fechou os olhos por um segundo, como se aquele movimento tivesse sido um golpe direto.
Então entrou na mansão.
Os corredores silenciosos devolveram o eco dos passos dele enquanto carregava Valentina com cuidado, subindo cada degrau como se aquilo fosse um ritual antigo.
Rafael atravessou o corredor com passos duros, carregando Valentina nos braços.
Ela estava leve. Leve demais.
O cheiro do perfume dela — suave, meio adocicado — se misturava ao álcool e ao calor da pele. O rosto encostado no ombro dele, o cabelo solto roçando o peito… era uma tortura involuntária.
Cada degrau da escada parecia longo demais, estreito demais para o que ele sentia.
— Eu podia ter mandado um segurança te trazer… — murmurou, quase inaudível, mais para si mesmo que para ela.
Valentina não respondeu. Só moveu a cabeça, como se buscasse um lugar mais confortável contra ele. A respiração dela era morna no pescoço dele. Uma linha de calor subindo, lenta, perigosa.
Rafael não lembrava a última vez que alguém encostou nele daquele jeito.
Ele odiou isso.
Odiou mais ainda o fato de não querer soltá-la.
A porta do quarto dela se abriu sem resistência.
Ele entrou e a luz suave do abajur desenhou a figura dela nos braços dele — frágil, rendida, com as bochechas coradas pelo álcool.
Rafael a colocou na cama devagar, como quem deposita algo valioso demais para tocar o chão de qualquer jeito.
O colchão afundou sob o peso dela.
Valentina murmurou algo. Não dava para entender.
Mas ele se inclinou mesmo assim.
Os dedos dele afastaram um fio de cabelo do rosto dela.
O polegar percorreu a bochecha quente, com um cuidado que ele não usava nem com vidro.
O corpo dele reagiu antes que a mente pudesse impedir.
Ela estava tão perto…
A boca dela — suave, entreaberta — quase tocava a dele se ele inclinasse alguns milímetros.
Só alguns.
Rafael fechou os olhos.
A respiração saiu pesada.
Ele não podia.
Por todos os motivos possíveis, ele não podia.
Quando abriu os olhos de novo, estava ardendo — de desejo, de frustração, de raiva.
Raiva de si mesmo.
A mão dele pousou no rosto dela por mais um segundo.
Um segundo inteiro que ele não devia ter permitido existir.
Depois, ele se obrigou a se afastar.
Passou a mão pelo rosto, apertando o maxilar, tentando arrancar aquilo de dentro dele — aquele impulso que gritou quando ela sussurrou, bêbada:
“Ele é poderoso demais…”
Poderoso demais para se permitir isso.
Poderoso demais para tocá-la.
Poderoso demais para estragar ainda mais a vida dela.
Ele apagou a luz, deixando só o abajur iluminando o contorno adormecido dela.
A sombra dos cílios longos, o rosto sereno, a vulnerabilidade involuntária.
Rafael abriu a porta.
E saiu.
Vittoria estava no corredor.
Parada.
Imóvel.
Como se estivesse esperando justamente por aquilo.
Rafael não disse nada.
Não devia explicar nada.
— O que foi isso Rafael Montenegro? … — murmurou, a voz baixa, venenosa.
Rafael passou por ela sem encará-la.
— Não comece, mãe.
— Como não vou começar.... Ela disse rindo friamente... — Você sempre teve um gosto pelas sofridas e pobres.
Rafael parou apenas por meio segundo.
Um segundo que ela percebeu.
Vittoria sorriu.
Um sorriso cruel, gelado, tão fino que podia cortar.
— Acredita mesmo que eu vou permitir que essa garota destrua o que construímos?
Rafael não respondeu.
Mas o silêncio dele já era uma guerra.
Vittoria continuou:
— Essa menina… vai sumir. — disse, quase como uma promessa. — Se depender de mim, desaparece antes que consiga tocar em qualquer coisa que te pertença.
Ele se virou apenas o suficiente para que ela visse o aviso nos olhos dele.
— Não faça nada.
E, por puro reflexo — ou exaustão — revirou os olhos.
E se arrependeu um segundo depois.
Clara viu.
Registrou.
Arma prática para jogar contra ela depois.
— Vou tomar banho. — disse Valentina, levantando-se. — Pode sair.
Clara não saiu.
Ao contrário: caminhou até o closet dela como se fosse o dela.
Abriu cabides.
Puxou peças.
Separou exatamente as mesmas cores de sempre — bege, creme, nude.
A morte da personalidade em roupas.
Pôs o conjunto na cama com precisão cirúrgica.
Só então disse, seca:
— Dez minutos.
E saiu do quarto.
Valentina ficou parada por um instante, respirando devagar, tentando encontrar algum fragmento de sanidade.
Depois entrou no banho.
A água quente bateu na pele como um abraço que ela não sabia que precisava.
Lavou o rosto com força, esfregou a nuca, deixou o vapor tentar apagar o gosto amargo do medo, da vergonha, da ressaca… e do que ela não queria nomear sobre Rafael.
Vinte minutos depois — mesmo que Clara tivesse ordenado dez — ela estava vestida, cabelo preso, rosto arrumado.
A maquiagem escondia o cansaço.
O coque escondia a alma.
O bege escondia a mulher que riu no clube.
Clara a esperava no corredor, braços cruzados, expressão de guarda de prisão.
— Pronta. — disse ela, sem olhar para Valentina.
Descendo a escada, Clara caminhou meio passo atrás dela — como se a escoltasse. Não era ajuda. Era vigilância.
Era controle.
No último degrau, Valentina respirou fundo.
O escritório ficava no lado leste da mansão.
Porta dupla.
Madeira escura.
Uma aura de “aqui as coisas acontecem e ninguém impede”.
Clara parou atrás dela.
— A senhora… está atrasada. — disse, só para cutucar.
Valentina parou diante da porta dupla do escritório.
As mãos estavam frias.
O estômago, revirado.
A ressaca, latejando atrás dos olhos como um aviso tardio.
Clara ficou um passo atrás, imóvel como uma guarda de presídio.
— Entre. — ela ordenou, seca.
Valentina fechou os dedos na maçaneta e puxou o ar devagar antes de empurrar a porta.

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