Valentina acordou com a sensação incômoda de que o corpo lembrava antes da mente.
Ela abriu os olhos devagar, ainda envolta pelo silêncio profundo da mansão Yamamoto. A luz da manhã entrava filtrada pelas cortinas, suave demais para combinar com a memória que voltou inteira, sem aviso.
O tapete.
O desequilíbrio.
A queda.
Ela em cima de Rafael.
Valentina fechou os olhos por um segundo, o calor subindo direto para o rosto.
Virou-se com cuidado, puxando o lençol até o queixo como se aquilo pudesse esconder o constrangimento — e encontrou Rafael acordado, apoiado no cotovelo, observando-a em silêncio.
Não havia tensão no rosto dele.
Nem ironia.
Só aquele olhar atento demais para ser confortável.
— Bom dia. — ele disse, baixo.
— Bom dia… — respondeu, sentando-se rápido demais.
Silêncio.
Não era pesado.
Era cheio.
— Sobre ontem… — Valentina começou, a voz saindo antes que pudesse frear.
— Foi um acidente. — Rafael respondeu de imediato, sentando-se também. — Você escorregou. Acontece.
Ela assentiu, um pouco rápido demais.
— Tapetes são… traiçoeiros. — completou, tentando sorrir.
O canto da boca dele subiu por um instante antes de desaparecer.
— Café da manhã em quinze minutos. — disse, levantando-se. — Te espero lá.
Quando ele saiu, Valentina soltou o ar devagar.
Não era drama.
Era só… vergonha mesmo.
O café da manhã transcorreu com uma normalidade quase ensaiada.
A mesa impecável. Chá quente. Frutas cortadas com precisão. Rafael já estava sentado quando ela chegou, lendo algo no tablet.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
— Dormi. — respondeu. — E você?
— O suficiente.
Comeram em silêncio por alguns minutos, até Rafael largar o tablet.
— Hoje à noite tem um baile de gala. — disse, simples.
Valentina ergueu o olhar.
— Baile?
— Evento previsto. — explicou. — Yamamoto vai me apresentar formalmente ao mercado internacional. Empresários, diplomatas, investidores.
Ela absorveu a informação.
— Entendi.
Mexeu no chá, pensativa.
— Eu posso levar a Bianca? — perguntou, com cuidado. — Se não for inadequado.
Rafael não hesitou.
— Pode.
Valentina sorriu.
— Obrigada.
— Ela faz bem a você. — ele completou, levantando-se. — Vou sair agora.
Ele pegou o paletó e caminhou até a porta.
— As senhoras vão cuidar de vocês durante a manhã. — disse antes de sair. — Aproveite.
E saiu.
Sem repetir nada.
Sem excesso.
Valentina ligou para Bianca ainda sentada à mesa.
— Você tá sentada? — perguntou, já rindo.
— Sempre. — Bianca respondeu. — Por quê?
— Baile de gala. Hoje à noite. Você comigo.
O silêncio do outro lado durou meio segundo.
— VOCÊ TÁ FALANDO SÉRIO?
— Muito.
— EU VOU GRITAR. — Bianca respondeu. — EU SABIA QUE VIR PRAQUI IA DAR EM ALGUMA COISA.
Valentina riu de verdade.
— O motorista passa aí em meia hora. As senhoras da casa vão nos levar pra um… spar.
— Spar chique ou spar perigoso? — Bianca perguntou.
— Japonês. — Valentina respondeu.
— Então os dois. — Bianca concluiu. — TÔ PRONTA.
Pouco depois, um dos funcionários da mansão apareceu à porta do quarto.
Outras mulheres se aproximaram aos poucos. Elas se acomodavam, trocavam cumprimentos discretos, comentários leves sobre o clima, o jardim, a vista da cidade.
Valentina observava tudo com atenção tranquila.
Uma das mulheres mais velhas aproximou-se dela, segurando a xícara com as duas mãos.
— Você não é daqui, não é? — perguntou, simples, observando o sotaque leve, a postura.
Valentina sorriu.
— Não. Sou brasileira.
Os olhos da mulher se arregalaram imediatamente, com um brilho genuíno.
— Brasil… — repetiu, interessada. — Uau. Sempre achei fascinante. As imagens que vemos… praias, florestas, essa ideia de calor humano.
Valentina assentiu, o sorriso ficando mais fácil.
— Nossa terra é bem calorosa mesmo. — disse.
Bianca se inclinou um pouco para frente.
— Eu gosto da mistura, moro lá e aqui. — acrescentou. — Tenho tanto, o calor brasileiro, como a disciplina japonesa.
Algumas mulheres sorriram. Outra balançaram a cabeça concordando.
A conversa se espalhou sem esforço. Uma comentou sobre um vestido que ainda não decidira usar. Outra reclamou do tempo que sempre mudava quando havia eventos importantes. Alguém mencionou viagens longas demais e malas que nunca fechavam direito.
— Então… — Hana disse em certo momento, olhando para Bianca. — Você mora no Japão?
— Metade do tempo. — Bianca respondeu. — O laboratório das farmacêuticas K é aqui em Tóquio.
— Você é neta da Virgínia?— Akemi perguntou, com um leve sorriso.
Valentina olhou para Bianca, divertida, Virgínia Kato era totalmente o oposta da neta, sempre fria e rígida, postura ereta e impecável.
— Sim. — Bianca respondeu. — Apesar de não ser nada parecida com ela.
O clima foi ficando mais solto com o passar do tempo. Algumas mulheres se levantaram para observar tecidos que haviam sido trazidos. Outras comentavam joias com interesse genuíno, não competitivo.
Quando Akemi anunciou que era hora de começarem a se preparar, ninguém pareceu surpresa.
— Vai ser uma noite longa. — disse. — Melhor começarmos sem pressa.
Valentina levantou-se e agradeceu com um leve inclinar de cabeça.
— Obrigada por esse momento. — disse. — Foi… inesperadamente bom.
Hana tocou de leve o braço dela.
— Merecemos depois de dias pesados.
Bianca abriu um sorriso largo.
— Se todo spa fosse assim, eu participaria de mais.
Akemi sorriu.
— Eu também.
Valentina saiu do salão com Bianca ao lado, sentindo o corpo leve, a mente clara.

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