O Clube Imperial fervilhava com risos vazios, taças tilintando e o cheiro caro de um lugar que existia apenas para ostentar poder.
Rafael atravessava o saguão ao lado de Lucas, rumo à sala VIP — o refúgio silencioso que ele usava como trincheira — quando o amigo explodiu do nada:
— Rafael… você não vai acreditar. — Lucas começou, indignado, como se carregasse um trauma recente. — Meus pais me armaram um encontro às cegas hoje. E, meu Deus do céu, aquilo foi um desastre nuclear.
Rafael continuou andando, impassível. — Não me interessa.
Lucas ignorou por completo.
— Ela chegou com um óculos de FUNDO DE GARRAFA, Rafael. — repetiu, gesticulando. — Daqueles que você enxerga até a alma da pessoa se olhar muito tempo. Quase tive um infarto.
Nenhuma reação.
— E ainda pediu um chá gelado num restaurante italiano! Chá gelado! — Lucas jogou as mãos pro alto. — Quem faz isso?! Quem não bebe vinho num encontro?!
Silêncio.
— E pra piorar… — Ele fez uma pausa dramática, sentindo a própria indignação subir. — Ela derrubou um drink na minha cabeça.
Rafael parou por meio segundo.
— E por quê? — perguntou, sem emoção.
Lucas se virou para ele como quem relata um crime brutal.
— Porque eu disse que, se a gente casasse, eu gostaria de manter o direito a amantes.
Rafael o encarou com aquela expressão que dizia: Você é um idiota funcional ou só um idiota mesmo?
— O que? — Lucas se defendeu. — Prefiro ser HONESTO, oras. Transparência é fundamental num relacionamento.
Rafael respirou fundo, visivelmente arrependido de ter feito a pergunta. Continuou andando.
— E ela ainda chamou meu terno de cafona! — Lucas colocou a mão no peito, dramático. — MEU TERNO, Rafael. Feito sob medida. Ousadia pura.
Rafael apertou o passo. Lucas seguiu.
— E antes que você pergunte… — completou Lucas, ofendido. — Sim, ela é completamente maluca. Sem noção. Insolente. Descontrolada.
Rafael estava prestes a dizer algo — ou mandá-lo calar a boca — quando uma risada atravessou o corredor.
Uma risada viva. Solta. Cheia.
Totalmente deslocada daquele ambiente de gente entediada.
Rafael parou.
Não porque reconheceu o som. Mas porque fazia semanas que ele não ouvia algo assim perto dele.
Lucas virou também, curioso. — Que foi agora?
Rafael não respondeu.
Seus olhos foram puxados para o lounge lateral, como se algo empurrasse sua atenção para lá.
E então ele viu.
Valentina.
Não a Valentina apagada de casa. Não a Valentina bege. Não a Valentina silenciosa.
Mas a mulher com os cabelos soltos, gestos leves, rindo como quem finalmente lembra que tem pulmões.
Rindo com alguém.
Lucas arregalou os olhos. — Ei, espera aí… — murmurou, chegando mais perto. — Aquele vulto… aquela mulher lá… não é a cientista desgraçada que jogou bebida EM MIM?!
Rafael nem piscou. Seu olhar estava preso em Valentina.
Lucas aproximou-se da coluna para enxergar melhor.
— OLHA LÁ! — exclamou, apontando para Bianca. — É ELA! A louca da bebida! A destruidora de encontros! A fugitiva de laboratórios secretos!
Rafael não reagiu. Não moveu um músculo.
— Nossa, mas ela tá diferente — Lucas murmurou, olhando Valentina sem reconhecê-la. — Aquela ali do lado dela, quem é? Uma modelo? Uma herdeira? Tem cara de gente rica…
Foi só quando o amigo deu dois passos à frente, estreitando os olhos, que a ficha caiu.
— …pera.
…pera.
…não.
NÃO.
RAFAEL… NÃO É POSSÍVEL.
Rafael continuou imóvel.
Lucas sentiu o choque atravessar o corpo.
— Aquela ali é a sua MULHER?!?!
Rafael desviou o olhar um segundo, como quem guarda algo antes que o mundo veja.
— Vamos. — disse, frio.
— VAMOS O QUÊ, SEU LOUCO?! — Lucas sussurrou alto. — A tua esposa tá… RINDO. E DE CABELO SOLTO. E COM A MALUCA QUE ME HUMILHOU!
Rafael não respondeu. Subiu a escada para a sala VIP.
Mas antes de entrar…
Olhou de novo. Só uma vez.
E o que viu deixou uma marca ardida, funda e involuntária, no lugar que ele fingia não ter.
Valentina riu, sentando-se na poltrona.
O garçom apareceu rápido.
— Tudo o que pedirem será por conta da casa, senhoras.
Bianca piscou como quem ouviu uma declaração de amor.
— O queeee?
Val, eu sabia que esse clube tinha coração!
Moço, traga um cardápio. O completo. E os hors-d’œuvre também. E… os modelos exclusivos!
Sim, onde estão os gogo boys quando a gente realmente precisa?!
Valentina enterrou o rosto nas mãos, rindo como não ria há meses.
— Bianca, pelo amor de Deus…
— O que foi? — Bianca abriu os braços. — Isso aqui é BENEFÍCIO, Val! Tô aproveitando!
Valentina ria. Bianca falava.
E do outro lado do vidro, Rafael via tudo.
Ele via Valentina jogar a cabeça pra trás quando ria.
Ele via Bianca gesticular como se estivesse dando palestra.
Rafael manteve os olhos fixos nela.
Bianca, do outro lado, ergueu a taça.
— Um brinde, Val! À liberdade temporária. E aos gogo boys que nunca chegaram.
Valentina ergueu a taça também.
— E às amigas que salvam dias ruins.
As duas brindaram.
Lucas olhou para Rafael por um segundo, estreitando os olhos.
— Ei… — murmurou. — Você… tá com essa cara por quê?
Rafael piscou devagar.
— Nenhuma.
Mas a verdade era simples, crua e proibida:
Essa era a mulher que ele quis desde o início e infelizmente a transformou na mulher que vive na mansão.

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