Valentina acordou antes do despertador.
Na verdade… nem tinha dormido direito.
Tomou banho, prendeu o cabelo num coque firme, passou a maquiagem leve que Clara tanto exigia — e vestiu um conjunto discreto, elegante, mas com um toque dela, como quem tenta colocar um pouco de alma naquilo que estavam arrancando.
Quando Clara abriu a porta do quarto sem bater, esperando vê-la desgrenhada, atrasada, desorganizada, tropeçou na própria expectativa.
Valentina estava pronta.
Erguida.
Serena.
Impecável.
Clara parou no batente, os olhos percorrendo de cima a baixo — procurando algo para criticar, algo fora do lugar, algo errado.
Nada.
Valentina arqueou uma sobrancelha.
— Algum problema? — perguntou, com voz suave, quase educada, mas carregada de ironia fina.
Clara crispou os lábios.
— Não. — respondeu seca.
Valentina passou por ela, sem tocá-la.
— Ótimo. Feche a porta quando sair. — disse, sem olhar para trás.
Clara ficou alguns segundos parada no corredor, mordendo a própria raiva, antes de obedecer.
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A sala de jantar estava silenciosa demais.
Vittoria sorvia café como quem julga o mundo.
Rafael lia relatórios no tablet, impecável no terno cinza, frio como mármore.
Valentina entrou.
— Bom dia. — disse, sem baixar o olhar.
Rafael ergueu os olhos por um segundo. Vittoria não respondeu, só apertou mais a xícara.
Valentina se sentou, começou a comer devagar. O silêncio era tão pesado que parecia ter peso físico.
Rafael terminou o café, recolheu o tablet e começou a se levantar.
Valentina, sem pensar muito, tocou o braço dele.
Foi leve.
Quase nada.
Mas ele parou.
E olhou para ela.
Não irritado.
Não confuso.
Apenas… atento.
— Preciso te falar uma coisa. — ela disse, firme.
Ele não afastou o braço. Não recuou. Não desdenhou.
— Diga. — respondeu.
Valentina respirou fundo.
— Uma amiga minha… uma amiga de verdade… voltou ao Brasil. Eu vou encontrá-la hoje. — disse. — Gostaria de saber se posso ir.
Foi rápido, mas Rafael viu.
O brilho nos olhos dela.
O tipo de brilho que não era para ele — e nunca tinha sido.
Um brilho que ele não via desde… desde o casamento.
Talvez nem ali.
Ele inspirou devagar.
— Pode ir. — disse.
A mesa congelou.
Valentina sorriu — um sorriso pequeno, verdadeiro, puro, tão raro que quase cortou o ar.
E aquilo acertou Rafael como um golpe surdo.
Vittoria quase engasgou.
— Rafael! — exclamou, indignada. — Hoje é o jantar da família, às sete! Ela precisa estar presente! Precisa mostrar que tem postura, que tem—
— Eu disse que ela pode ir. — Rafael a cortou, sem levantar a voz.
Foi tão frio, tão seco, tão definitivo que o garçom deixou cair uma colher na cozinha.
— E eu também não estarei no jantar. — completou ele, pegando o paletó. — Então nada disso importa.
Vittoria ficou boquiaberta, a palavra presa na garganta.
Rafael saiu da sala.
As duas sentaram-se em um lounge discreto.
O garçom se aproximou; Bianca ignorou o cardápio e já pediu:
— Dois spritz. Fortes. Muito fortes. A gente precisa reidratar a alma.
Valentina riu de novo.
— Ainda nem contei o que aconteceu.
— Não precisa. Eu vi nas redes. — Bianca estalou a língua. — A advogada mais brilhante do país casou com o homem mais indesejado do Brasil. Val, eu pensei que era deepfake.
— Não é. — ela respondeu, suspirando.
— E pra completar — Bianca continuou, indignada — eu tive um encontro às cegas com um dos imbecis da família Medeiros.
Você acredita que o sujeito teve a audácia de dizer que se casaria comigo SE eu aceitasse que ele tivesse amantes?
E que me daria uma mesada de 200 mil?
Valentina quase engasgou rindo. — Du-duzentos mil?
— DU-ZEN-TOS! — Bianca jogou os braços pro alto. — Val, eu faço isso em duas horas de trabalho! Sou cientista, cacete! Quer dizer… não hoje. Hoje eu só quero morrer.
Valentina recostou-se na cadeira, o sorriso se abrindo mais e mais.
— Eu senti falta disso… — confessou. — Muito.
Bianca suavizou, tocando a mão dela.
— Senti falta de você também.
E você não tá bem.
Eu sei que não tá.
Valentina respirou fundo.
Não precisava explicar. Bianca entendia só de olhar.
— Mas eu tô aqui. — disse Bianca, firme. — E você vai lembrar como é ser… você.
O garçom trouxe as bebidas.
Bianca ergueu a taça.
— Um brinde à sobrevivência. — disse ela.
Valentina ergueu a sua, com um sorriso pequeno — mas verdadeiro.
— Um brinde às amigas que aparecem no momento certo.
As taças se tocaram com um som suave.
Por um instante, o mundo ficou leve.

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