O escritório de Rafael estava mergulhado em silêncio.
Do lado de fora, São Paulo fervia, mas ali dentro só se ouvia o zumbido baixo do ar-condicionado e o som distante do tráfego.
O tablet repousava sobre a mesa, o brilho da tela ainda aceso.
Na imagem, Valentina sorria — aquele sorriso ensaiado que ela dera durante o chá no Jóquei.
“O senhor Montenegro sempre foi direto no que quer.”
A voz dela ecoou pelo alto-falante.
Rafael encostou-se na cadeira, os olhos fixos na tela, o maxilar travado.
Aquela frase ficou rodando na cabeça como uma lâmina.
Um toque na porta.
Antes que pudesse responder, ela se abriu.
— Bom dia, senhor Montenegro.
Rafael não precisou olhar para saber quem era.
Revira os olhos.
— Já disse que tem que ser anunciado, Lucas.
Lucas Medeiros entrou, o terno meio amassado, o sorriso insolente de quem nunca entendeu o perigo que é brincar com um Montenegro.
— Eu, anunciado? Jamais. Ia estragar a surpresa.
Ele se jogou na poltrona à frente da mesa, cruzando as pernas como se estivesse em casa.
— Então? — perguntou, o olhar caindo sobre o tablet. — Como está a vida de casado?
Rafael soltou um suspiro lento, sem disfarçar o tédio.
— O que quer, Lucas? Estou ocupado.
— Nada demais. — respondeu o amigo, sorrindo. — Só que meus pais me arrumaram um encontro às cegas hoje e eu precisava lembrar que alguém está em situação pior que a minha.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
— Sempre tão trágico.
Lucas apoiou o cotovelo na mesa, divertido.
— Trágico é ver o todo-poderoso Rafael Montenegro domesticado. — debochou. — Quem diria, o homem que sempre fugiu de compromissos agora é marido de uma advogada.
Rafael pegou o tablet e desligou a tela com um toque seco.
— Cuidado com o que fala.
— Relaxa. — respondeu Lucas, rindo. — Sabe o que dizem? O amor humilha até os mais arrogantes. E você, meu caro... adora ser humilhado.
Fez uma pausa, o olhar afiado.
— Imagina quando ela souber a ver—
— Chega. — interrompeu Rafael, a voz firme, cortante.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Lucas piscou, se recostando na cadeira.
— Desculpa. — murmurou. — Eu... não devia ter falado disso.
Rafael se levantou, caminhou até a janela.
A luz da manhã desenhava sombras nas paredes.
— Se não tem medo da morte — disse, sem se virar — ou medo de ficar sem a língua, sugiro que nunca mais toque nesse assunto.
Lucas levantou as mãos num gesto de rendição.
— Ok. Esquece o que eu disse.
Mudou de tom, leve:
— Então vamos ao clube mais tarde? Depois do meu fiasco romântico?
Rafael girou lentamente o copo de uísque na mão.
— Talvez.
— Leve sua esposa. — provocou Lucas. — O pessoal quer conhecer a senhora Montenegro.
Rafael virou-se, os olhos frios.
— A sociedade adora um espetáculo.
— E você é o mestre deles. — disse Lucas, sorrindo. — Até mais, “senhor casado”.
Ele se levantou e saiu, assobiando baixo.
A porta se fechou, e o silêncio voltou.
Rafael olhou para o tablet ainda sobre a mesa.
Por um segundo, o dedo quase tocou o botão para ligar a tela outra vez.
Mas não.
O relógio da cabeceira marcava 22h47.
O quarto estava mergulhado em penumbra, só o abajur aceso lançava um círculo tímido de luz sobre a cama.
Valentina estava sentada, de robe, com o olhar fixo na janela. Lá fora, São Paulo pulsava — viva, barulhenta, indiferente. Ali dentro, o silêncio era uma sentença.
O celular vibrou em cima do criado-mudo.
Ela levou um susto. Quase não ouvia o toque há dias; ninguém ligava, ninguém ousava.
Quando viu o nome na tela, o coração bateu diferente.
Bianca respirou fundo.
— Você tá em perigo?
Valentina riu baixo.
— Essa casa é o perigo. — sussurrou. — E não posso falar muito… tudo aqui escuta.
— Como assim “tudo aqui escuta”? — perguntou a amiga, alarmada.
— Longa história. — desviou. — Me conta de você.
Bianca soltou um resmungo.
— Eu voltei ao Brasil ontem. Vovó me arrastou de volta. Disse que “mulher solteira de trinta anos já passou da hora de encontrar alguém decente”.
— O pesadelo clássico. — Valentina murmurou, sorrindo.
— Pois é. E pra piorar, me armou um encontro às cegas hoje à noite com um cara que, segundo ela, “tem boa família e muitos zeros na conta”. — o tom de deboche era puro. — Traduzindo: um idiota metido a conquistador.
Valentina riu de verdade, dessa vez. Um riso vivo, livre, quase esquecido.
— Cuidado pra não ser pior que o meu.
— Impossível! — Bianca rebateu. — O seu ainda é funcional, o meu é uma tragédia ambulante.
As duas riram juntas.
Por alguns segundos, parecia que o mundo voltava a ter cor.
— Val… — disse Bianca, mais suave. — Me encontra amanhã no Clube Imperial. Às sete. Quero ver seu rosto de perto.
— No Clube? — repetiu Valentina, franzindo o cenho.
— Sim. — respondeu Bianca, rindo. — Vai ser ótimo. Eu saio do meu encontro de tortura e você finge que me resgata.
Valentina olhou em volta. O quarto estava silencioso, mas de algum modo, sentia-se vigiada.
Ainda assim, respondeu:
— Eu vou. Prometo.
— Boa. E, Val… — a voz de Bianca vacilou. — Seja quem você era, nem que seja por uma hora.
A ligação caiu.
O silêncio voltou.
Mas o rastro da risada da amiga ainda estava no ar — um eco doce no meio daquela casa de mármore.
Valentina ficou parada, o celular nas mãos.
O canto dos lábios ergueu-se num sorriso tímido.
Ela se olhou no espelho.
Pela primeira vez, o reflexo pareceu humano.

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