Entrar Via

Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário romance Capítulo 10

As batidas na porta vieram antes do sol.

Três. Secas. Frias. Precisas.

Valentina abriu os olhos devagar. O quarto ainda estava mergulhado na penumbra, o relógio na mesa marcava 6h15.

A cabeça latejava. Tinha dormido pouco ou nada.

— Senhora Montenegro, abra a porta. — a voz de Clara atravessou a madeira, sem emoção. — E, por favor, não a trave novamente.

Valentina respirou fundo antes de girar a maçaneta.

Clara estava lá: impecável, o mesmo coque puxado, o mesmo rosto sem traço de vida.

— Ainda é cedo pro café. — disse Valentina, rouca.

Clara passou por ela sem pedir licença, como quem entra num escritório, não num quarto.

O perfume caro tomou o ar.

— A senhora Montenegro mandou que se arrumasse. — informou, abrindo o closet. — Há um chá com algumas senhoras influentes no Jóquei Clube.

Valentina olhou o relógio.

— Isso é daqui a duas horas.

— Então não desperdice tempo. — respondeu Clara, enquanto separava cabides.

Ela tirou um papel dobrado do bolso do blazer e o estendeu.

— Leia.

Valentina pegou o papel.

— O que é isso?

— Respostas. — disse, simplesmente. — As perguntas mais prováveis.

Os olhos dela desceram pelas linhas datilografadas:

" Onde se conheceram: numa festa em Madri, durante um evento de investimentos.

Quem tomou a iniciativa: o senhor Montenegro.

Quem deu o primeiro beijo: o senhor Montenegro."

Valentina soltou o ar devagar.

— Até isso tem que ser ensaiado.

— Sim. — respondeu Clara, sem olhar. — O cliente precisa de veracidade. E aqui, veracidade se compra com coerência.

Valentina bufou, dobrando o papel com força.

— Ridículo.

Clara continuou organizando roupas, impassível.

— O ridículo é errar as respostas diante das pessoas. Decore. E vá tomar banho. Tem vinte minutos pra se arrumar.

— São seis e vinte. — disse Valentina, olhando o relógio. — Tenho mais de uma hora.

Clara virou-se, o olhar frio.

— Agora tem dezenove.

O silêncio que veio depois foi quase físico.

Valentina pegou a toalha e foi para o banheiro.

A água caiu forte, quente, mas não aliviou nada.

No espelho embaçado, o próprio reflexo parecia se dissolver.

Lá fora, Clara batia os saltos no chão de mármore, impaciente um metrônomo de obediência.

Valentina vestiu o que ela havia deixado sobre a cama: o mesmo bege de sempre, o mesmo corte, a mesma ausência de cor.

Quando saiu, Clara já esperava com uma pasta na mão.

— O motorista está pronto. — disse, conferindo o relógio. — Não se atrase.

Valentina pegou a bolsa.

O papel com as respostas ainda estava dentro dela.

Dobrado, amassado mas ali.

O carro seguiu pelas ruas de São Paulo em silêncio.

Pelas janelas escuras, Valentina via a cidade acordando: crianças indo pra escola, mulheres com café nas mãos, o mundo comum que agora parecia um planeta distante.

No banco da frente, Clara digitava no celular.

Cada toque era um lembrete: nada ali era dela.

Quando chegaram ao Jóquei Clube, o portão de ferro se abriu com o som metálico da riqueza.

Carros caros, jardins perfeitos, risadas controladas.

Vittória já as esperava na entrada, cercada por três mulheres de vestidos caros e olhos afiados.

Até Vittoria inclinou a cabeça, curiosa.

— E quem tomou a iniciativa? — perguntou outra, com ar de falsa inocência.

— Ele. — respondeu Valentina sem hesitar. — O senhor Montenegro sempre foi direto no que quer.

O silêncio que veio a seguir teve gosto de surpresa.

Mas o pior golpe ainda estava por vir.

Uma senhora de cabelos ruivos, conhecida por destruir reputações com a pontinha da língua, pousou o bule e perguntou:

— E o primeiro beijo?

Valentina ergueu os olhos, sem pressa.

O sorriso que veio depois era sutil, enigmático, quase íntimo.

— Também dele. — respondeu. — Rafael Montenegro nunca hesita quando decide algo.

As mulheres se entreolharam. Nenhuma ousou rir.

Vittoria manteve a expressão neutra, mas o brilho nos olhos a denunciou: orgulho misturado à irritação.

A nora tinha vencido o campo de batalha sem sequer levantar a voz.

O chá seguiu entre comentários sobre fundações, viagens e desfiles.

Cada pergunta parecia ensaiada, e Valentina respondia com a calma de quem aprendeu a lidar com tribunais cheios de predadores.

Nenhum deslize. Nenhuma hesitação.

Quando o encontro terminou, as mulheres se levantaram, sorrindo com a polidez de quem acaba de perder uma partida e finge elegância.

Vittoria aproximou-se por trás, sem pressa.

— Foi bem hoje. — disse, num tom que beirava o elogio. — Quase convincente.

Fez uma pausa.

— Valeu cada centavo gasto.

Ela virou-se, subiu no carro preto que a esperava e mandou o motorista partir, deixando Valentina parada na calçada.

O reflexo do carro espelhava o rosto dela — impecável, calmo, vazio.

Por um segundo, não reconheceu a mulher que a encarava dali.

Valentina ficou ali, imóvel, o vento levantando um fio do cabelo preso — como se o mundo conspirasse para lembrar que, por baixo da máscara, ainda havia uma pessoa.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com o Magnata Frio por Um Acordo Bilionário