Dois dias depois, a fazenda parecia ter engolido o relógio.
O tempo corria rápido demais.
O altar começava a ganhar forma sob a grande figueira, as luzinhas já estavam sendo penduradas entre os galhos, o cheiro de madeira recém-lixada se misturava ao aroma doce vindo da cozinha. Peões passavam carregando fardos de feno decorativo, Tomás gritava com alguém sobre o posicionamento do palco, Sophia discutia com o decorador sobre a cor exata das flores, e Isabella estava prestes a declarar guerra contra a empresa de buffet . O casamento era no dia seguinte e os nervos de todos estavam à flor da pele, principalmente de uma das noivas.
No meio desse caos organizado, Lila estava… sentada na varanda.
De pernas cruzadas na cadeira de balanço, usando um short jeans folgado, um par de meias e uma camisa de botões de Taylor, grande demais pra ela, com as mangas dobradas e o tecido cheirando a ele. A barriguinha de quatro meses desenhava um pequeno arco sob o algodão, já impossível de disfarçar, linda e evidente.
Era o tipo de cena que daria uma foto perfeita. Se não fosse pelo bico.
Um bico digno de novela mexicana, empinado, insistente, teimoso. Os olhos claros saltando entre o horizonte, a estrada de terra, e o celular em cima da mesinha, como se pudesse fazê-lo tocar apenas com a força da birra.
— Você vai furar a tela com esse olhar — comentou Catarina, largada na cadeira ao lado, mexendo distraidamente no próprio celular. — Confia no processo, cunhada. O avião dele já deve ter pousado.
— O avião pousou faz horas — Lila rebateu, sem desviar os olhos da estrada. — Ele não está com saudade de nós. E deve ter desistido de casar comigo depois do meu surto de ciúmes.
Catarina riu.
— Vou fingir que não ouvi isso.
Lila ignorou, mas o peito apertou, traindo o humor.
Desde o surto na ligação de vídeo, ela até tinha respondido algumas mensagens de Taylor. Coisas curtas. Sobre ele perguntando sobre ela e os filhos, se ela estava se alimentando, se estava dormindo bem.
Nada de áudios, nada de chamada.
Nada de “eu te amo” do jeito que a vontade mandava.
Orgulho de grávida. Mistura perigosa de hormônios com saudade.
Ela passou a mão pela barriga, lentamente, como se conversasse em código com os bebês.
— Eu sei, eu sei… — murmurou baixinho. — A mamãe exagerou. Mas vocês não viram a ruiva. Era uma ruiva russa. Isso invalida qualquer racionalidade.
— Falando sozinha de novo? — Catarina provocou, jogando uma almofada leve na direção dela.
— Falando com os meus filhos, se você não se importa — Lila respondeu, ajeitando a camisa larga de Taylor sobre as coxas nuas. O tecido ainda tinha o perfume dele, um cheiro de sabonete masculino, madeira e algo totalmente dele. — Eles entendem todo o drama da mãe deles.
— Entendem mesmo — a cunhada concordou, rindo. — Coitados.
O silêncio se instalou por alguns segundos. Lá embaixo, perto do galpão, Gabriel gesticulava com James sobre o lugar ideal para as caixas de cerveja, enquanto Tomas matava um pouco a saudade de Clara.
Lila fingia não se importar. Mas contava, mentalmente, cada segundo.
Foi quando ouviu o som.
O ronco familiar da caminhonete de Maurício vindo pela estrada de terra. Um barulho grave, conhecido, que sempre anunciava confusão, risada… ou as duas coisas ao mesmo tempo.
Dessa vez, anunciou outra coisa. O coração dela errou o compasso.
Lila se endireitou na cadeira, o bico sumindo sem pedir licença. Os olhos correram para a estrada, e lá estava: a caminhonete levantando poeira, chegando mais rápido do que o juízo dela conseguia acompanhar.
— É ele? — perguntou, com a voz repentinamente fina.

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