O silêncio depois da frase de Lila não foi apenas silêncio, foi uma pausa tensa, carregada e viva, como o instante antes de um raio cortar o céu. Havia algo ali que não era quietude, era um alerta, um aviso, um pressentimento. O tipo de silêncio que se arma devagar, como predador circulando presa. Um silêncio cheio de trovões invisíveis, de respirações curtas e de narinas levemente dilatadas… aquele pré-caos que deixa qualquer homem inteligente em alerta e qualquer homem burro… morto.
— Quem é essa? — repetiu, só que dessa vez o tom não vinha com pitadas de ciúme fofo, ou dramatização hormonal adorável. Não. Dessa vez era perigo puro. Era um tom carregado com a promessa silenciosa de consequências sérias. O tipo de voz que faria até um touro bravo largar a arena e reconsiderar a própria existência.
Fria, firme, incrédula e absolutamente homicida.
Taylor demorou um milésimo de segundo, apenas o suficiente para perceber que havia cruzado uma fronteira emocional delicada. Seus olhos se arregalaram como quem pisa em uma mina terrestre: tarde demais para recuar, cedo demais para morrer com dignidade.
— Ah… — começou ele, coçando a nuca com aquele gesto típico de alguém que está considerando fingir amnésia, roubo de identidade ou queda repentina de satélite. — É a intérprete.
Falou com a naturalidade de quem anuncia uma colher, uma pedra, uma planta irrelevante.
Lila inclinou a cabeça devagar. Cada centímetro de movimento era um capítulo inteiro de caos anunciado.
— Intérprete… — repetiu, degustando a palavra como quem experimenta veneno antes de jogá-lo no inimigo. — Uma intérprete ruiva. De salto. Com um decote que dá pra guardar uma farmácia inteira e ainda sobra espaço pra um mini mercado, entrando sorrindo no seu escritório fechado?
Catarina, ao lado, tentou manter a compostura. Mas aquele era o tipo de cena histórica que merecia balde de pipoca, cadeira reclinável e replay.
Taylor respirou fundo, aquele fundo cansado, desesperado, de quem aceitou o destino.
— Amor… — tentou com a voz calma que geralmente persuadia cavalos ariscos, tempestades emocionais e a própria mãe. — Ela tá traduzindo pra equipe. É só trabalho. Ela tá aqui o tempo todo com todo mundo, ninguém está sozinho …
E foi aí.
Bem aí.
Que a ruiva virou para a câmera… sorriu… e acenou.
Delicado, controlado, ensaiado.
— Priviet. — disse em russo, com aquela voz doce que parecia treinada para comerciais de perfume caro ou sequestro internacional elegante.
A chama encontrou gasolina.
Lila piscou, não rápido, não nervoso.
Devagar.
Aquele piscar cinematográfico que antecede guerras.
— Que gracinha… — murmurou com um sorriso perfeitamente assassino. — Ela é educada. Educada, ruiva, magra, descansada, com tempo pra fazer escova, com cutícula feita e …. —respirou fundo… — ESTÁ SOZINHA TRANCADA DENTRO DE UMA SALA COM O MEU NOIVO!
Taylor abriu a boca. Um gesto arriscado.
— Princesa…
— NÃO. ME. CHAMA. DE. PRINCESA. AGORA.
A voz dela saiu trêmula. Não fraca, nunca fraca, mas carregada de emoção crua, visceral, hormonal e altamente inflamável.
— Eu tô aqui, nessa fazenda, sozinha, carregando os seus filhos, comendo sonho como se fosse ar porque é o único jeito de não chorar por absolutamente tudo, e você tá aí… TRANCADO COM UMA RUIVA EM MOSCOU.
— Eu não tô trancado — rebateu, gesticulando mais do que um advogado desesperado. — Tem gente aqui, tem equipe, tem chefe, tem tradutor, tem câmera — Eu não estou flertando com ninguém.
Lila ergueu uma sobrancelha com elegância mortal.
— Aham. E JUSTO NA HORA que você está numa chamada com SUA NOIVA a Barbie exportada entra inclinando, sorrindo, oferecendo tablet… Ah, o universo AMA brincar com a minha paciência.
Taylor se aproximou mais da câmera, como se diminuir distâncias físicas apagasse incêndios emocionais intercontinentais.

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