O som distante de martelos, risadas e cavalos era quase uma trilha sonora caótica, mas Tomás, parado no meio do gramado com um tablet na mão e expressão de santo perdendo a paciência, tinha apenas uma preocupação no momento:
A playlist.
Ele inspirou fundo, fechou os olhos como quem medita, e murmurou para si mesmo:
— Um casamento perfeito começa com três coisas: luz correta, flor no lugar certo… e música que faz até quem nunca amou acreditar no amor.
Então atendeu a ligação.
— Claro que eu quero a banda local, Richard. — disse com a paciência cuidadosamente medida. — Eles são incríveis. Animados. Sabem levantar a poeira do chão e botar peão macho pra dançar forró colado até o chapéu cair. Maravilhoso. Eu quero isso. Mas…
Ele ergueu o dedo no ar como se alguém estivesse ali para ser silenciado.
— Na festa. Não na cerimônia.
Houve uma resposta do outro lado. Tomás contraiu uma pálpebra.
— Amigo… a entrada da noiva não pode começar com “She’s Got Yo”, mesmo que seja versão acústica. — Ele balançou a cabeça, incrédulo. — Não. Nem se tiver violino. Não existe arranjo no planeta Terra capaz de transformar isso em emoção.
Ele começou a caminhar em direção à cerca branca, observando de longe as flores sendo organizadas.
— A vibe é outra, entendeu? A cerimônia precisa ser arrepio, fungada contida, gente tentando segurar lágrima pra não borrar maquiagem de cinco dígitos. A música tem que parecer que o céu abriu pra assistir.
De repente, ele parou e uma ideia surgiu como raio.
— Já sei. — murmurou, deslizando o dedo para outra chamada. — A banda local fica pra parte animada, sem restrições. Até coreografia ridícula eu permito. Mas a abertura…
A nova ligação chamou.
Dessa vez, quando alguém atendeu, a postura dele mudou, para elegante, e triunfal.
— Olá, é a equipe da Adele? — disse com um sorriso que ninguém podia ver, mas dava pra sentir. — Sim, Adele. A Adele. A que abre a boca e o planeta decide chorar por motivos desconhecidos. Isso.
Uma pausa longa o suficiente para aumentar o drama.
— Eu quero saber se ela está disponível para cantar apenas uma música na cerimônia. Uma única. A entrada das noivas. — Ele fez uma pausa, olhando para o céu como se suplicasse força divina. — Eu sei que ela não faz casamentos… mas este não é um casamento. É uma obra-prima emocional no campo.
Ele ouviu, assentiu, sorriu como quem acabou de ganhar uma guerra.
— Maravilhoso. Mandem o contrato. E avisem a banda local que na festa eles podem tocar até funk medieval, se quiserem. Eu não interfiro depois do bolo.
Antes de encerrar, acrescentou teatral, quase poético:
— Vai ser perfeito. Gente rindo, gente chorando… gente vivendo. Como tem que ser.
E com isso, Tomás desligou, anotando com orgulho quase arrogante:
Abertura da cerimônia: Adele — voz + piano.
Festa: Banda local — caos permitido.
Depois suspirou, satisfeito no fundo o que ele queria era fazer com que a noite da irma e da amiga fosse inesqueciveis.
Na varanda, o tempo parecia ter outro ritmo.
Lila já estava no terceiro… quarto… talvez quinto sonho. Quem estava contando? Também, ninguém em sã consciência negaria comida a uma grávida de gêmeos com cara de quem podia começar a chorar se ouvisse um “não”.
Ela alisava o ventre com movimentos circulares, a expressão misturando ansiedade, ternura e um pouquinho de drama.
— Lucca, Luna… — murmurou, baixinho, como se eles pudessem escutar. — A mamãe está com muita saudade do papai, sabia?
Catarina, que finalmente tinha encerrado a chamada com o estilista com direto a ameaça incluída, acordo firmado e dramas suspensos temporariamente, sentou-se na cadeira ao lado com um suspiro dramático.
— Pronto. Se esses vestidos não chegarem, a culpa não é minha. Eu ameacei o suficiente para ser processada — concluiu.
Lila nem ouviu. Estava ocupada numa conversa muito séria com o próprio ventre.
— Ele tá lá na Rússia… — continuou, fazendo um muxoxo fofo, projetando o lábio inferior. — Em reunião, todo importante, cheio de terno, gravata, essas coisas chatas. E a gente aqui… abandonados… sem o cheiro dele, sem o abraço dele, sem o beijo de boa noite…
— Drama detectado. — Catarina comentou, mas com um sorrisinho.
Lila ignorou de novo, os dedos desenhando corações imaginários na barriga.
— Vocês também estão com saudade dele, né? — sussurrou. — Eu sei que estão. Eu tô. Muito. Muito mesmo.

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