A fazenda parecia um formigueiro em chamas.
Caminhões entrando e saindo pela estrada de terra, peões carregando caixas, decoradores espalhando flores pelos jardins, vozes se sobrepondo numa sinfonia caótica de “cuidado com isso!”, “isso não vai caber ali!” e “quem mexeu no meu projeto?”. O sol da tarde dourava tudo com um brilho de cena de filme, mas ninguém ali tinha cabeça para contemplação poética.
Faltavam poucos dias para o casamento duplo:
Lila e Taylor.
Mauricio e Catarina.
E a Sun Valley nunca tinha visto nada igual.
Sophia, impecável num vestido leve de linho branco, andava com uma prancheta na mão como se fosse a comandante de uma operação militar.
— As flores da cerimônia externa têm que ser entregues até amanhã de manhã, não depois. — dizia, sem perder a elegância, enquanto corrigia a posição de um arranjo. — Eu quero o altar em forma de semi-arco, não aquele treco… triangular… conceitual. Aqui é uma fazenda, não exposição de arte moderna.
Ao lado dela, Isabella falava ao telefone com alguém da cidade, com uma mão no quadril, a outra gesticulando e o óculos na ponta do nariz.
— Não, querido, eu não quero “aperitivos rústicos”. Eu quero comida de verdade. Gente que trabalha em fazenda come. — Fez uma pausa, revirou os olhos. — É, pode mandar os canapés também, mas se faltar coxinha e pastel, eu vou pessoalmente aí te buscar pela orelha.
O contraste era perfeito:
Sophia, refinada e estratégica.
Isabella, prática e dramática.
Entre uma ordem e outra, as duas se olhavam, suspiravam… e sorriam.
No fundo, estavam emocionadas demais para admitir em voz alta.
Do outro lado da casa, na varanda principal, o clima era… bem diferente.
Lila estava afundada numa cadeira de balanço, com um prato no colo e um bico tão bem feito que merecia prêmio. Diante dela, uma bandeja com uma fornada inteira de sonhos recém-saídos da cozinha. Açúcar polvilhado, recheio generoso, cheiro de infância e pecado.
E ela estava devorando.
— Eu juro que se esse homem não voltar da Rússia inteiro, eu mato ele. — murmurou, falando mais com o recheio de creme do que com qualquer pessoa específica.
O pequeno ventre de quatro meses despontava sob o confortável vestido de algodão. Nada exagerado, mas impossível de ignorar. Ela passava a mão ali o tempo todo, num carinho automático, protetor, como se estivesse desenhando o contorno de dois segredinhos que já tinham nome: Lucca e Luna.
Ao lado dela, Catarina andava de um lado para o outro, com o celular colado na orelha, o salto das sandálias batendo no piso de madeira como um metronômetro irritado.
— Não, Felipe, você não está entendendo… — A voz dela subiu um tom. — São DOIS vestidos. Dois. Não é fantasia de carnaval, é vestido de noiva. Noiva, entendeu? Branco, renda, lágrimas, essas coisas…
Lila tentou não rir, mas não conseguiu.
Enfiou meio sonho na boca de uma vez.
— Se você surtar mais um pouco, ele desiste e manda a gente casar de jeans e camiseta — comentou, com a voz levemente abafada pela massa doce.
Catarina ignorou.
— Não, eu não quero saber se “a barra da Catarina é mais complexa”. É CLARO que é mais complexa, EU sou mais complexa! Mas você teve meses para se preparar, meu anjo. Meses. — Ela parou na frente da varanda, apertando a ponte do nariz. — Olha, Felipe… se esses vestidos não chegarem na fazenda até sexta, eu vou pessoalmente ao seu ateliê, e vou obrigar a você costurar os nossos vestidos com os dentes. Acha que eu não faço?
Lila gargalhou, limpando com o dedo um pouco de creme que tinha ficado no canto da boca.

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