O pub na cidade parecia respirar junto com a noite. As luzes âmbar pendiam do teto baixo, refletindo no verniz gasto do balcão e nos copos de vidro onde a cerveja formava coroas espessas de espuma. O cheiro de madeira antiga, tabaco doce e carne no fogo dava ao lugar um ar de velho santuário, daqueles em que histórias se juntam umas às outras e viram lendas. Do lado de fora, caminhonetes alinhadas como cavalos descansando. Do lado de dentro, o barulho bom de botas no piso, risadas de quem conhece todas as rotas do campo e da vida.
— Aos noivos! — anunciou Tomás, o cunhado de Taylor, levantando um copo alto. — E à paciência de quem vai morar com eles!
O brinde explodiu em aplausos. Taylor bateu o copo no de Maurício, rindo. O rosto quente pelo álcool, mas a cabeça ainda firme. Ele sentia a alegria bater no corpo como se fosse o próprio ritmo da bateria country que vibrava no fundo do salão. Eram seus amigos, todos estavam ali por ele e por Maurício, dois casamentos à vista, duas vidas prestes a dar um passo que não se mede em metros, mas em coragem.
— Tomás, você exagerou — resmungou Taylor, encarando a mesa abarrotada de nachos, costela defumada e umas três fileiras de shots de cachaça que brilhavam como armadilhas.
— Eu? — Tomás se fez de ofendido, ajeitando a jaqueta de couro como quem se veste de responsabilidade. — Eu sou um poeta do planejamento. Vocês que são as musas.
Risos.
A jukebox trocou a faixa, entrando uma guitarra preguiçosa que enroscava no ar. Maurício, sentado de lado, batia o ritmo com os dedos no tampo da mesa, com os olhos vivos e aquele sorriso de quem já aprontou boa parte da vida e ainda acha que pode aprontar mais um bocado, só que agora com uma cicatriz a menos no coração, porque Catarina tinha chegado como uma espécie de cura áspera e doce ao mesmo tempo.
Os fazendeiros locais se revezavam em histórias.
Teve caso de bezerro que virou recorde de leilão, de seca que quase partiu a alma, e de uma tempestade que derrubou meia cerca e ergueu a outra metade com relâmpagos. Taylor ouvia, ria, olhava para o copo e pensava em Lila. A lembrança dela vinha como um clarão: o cheiro de sabonete e lírios, a camiseta dele caindo no corpo dela, o riso indignado sempre um segundo antes de ceder à ternura, a vida dos filhos que crescia em seu ventre. A mão dele apertou o copo com força. A ideia de “para sempre” já não era um precipício, era um rancho de luz acesa.
— Mais uma rodada! — gritou alguém.
— Só se o Tomás pagar! — retrucou outro.
— Eu pago com amor — devolveu o cunhado, teatral. — E com o cartão do Taylor.
— Nem pensa, poeta — respondeu Taylor, apontando para ele com a boca cheia de riso.
Foi nesse ponto que a porta do pub se abriu com um empurrão sem cerimônia. A conversa baixou um tom, curiosa, como se o salão prendesse a respiração para checar o próximo capítulo. Entraram duas mulheres, de couro preto, botas até o joelho, espartilhos apertados que desenhavam silhuetas de pecado e uma aura de “eu mando aqui”.
Tomás deu um passo para trás, satisfeito.
Taylor desviou o olhar para Maurício que congelou, depois encarou o cunhado, num sussurro apavorado:
— Taylor, se a sua irmã souber, eu sou um homem morto.
Taylor virou para o cunhado dizendo.
— Arriégua, Tomás, você…
Mas antes que ele terminasse, as duas chegaram no meio do salão e perguntaram:

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