O tempo, às vezes, é um ator dramático.
Às vezes se arrasta como um velho rabugento arrastando chinelos pelo corredor.
Às vezes corre como uma criança que descobriu o primeiro pedaço de bolo da vida.
E, em certas manhãs, parece simplesmente ansioso demais para revelar um segredo.
Aquela manhã era assim.
Quando Lila abriu os olhos, sentiu o coração disparar como se já estivesse correndo desde antes dela despertar. Era medo e alegria, ansiedade e amor, tudo misturado num coquetel emocional que deixava a respiração curta. O sol entrava pelas cortinas como dedos dourados tocando as bordas do quarto, iluminando a madeira, aquecendo o ar, trazendo o perfume gostoso da fazenda misturado com cheiro de café fresco que vinha da cozinha.
Era o dia da ultrassonografia.
O dia em que o mistério mais bonito do mundo ganharia som e talvez forma.
Ela levou a mão ao ventre, acariciando a curva suave que começava a se desenhar, e sorriu com aquele carinho instintivo que só quem carrega um universo dentro de si compreende.
Ao lado, Taylor estava de bruços, abraçado ao travesseiro, o cabelo bagunçado, a boca parcialmente aberta e aquele franzir automático na sobrancelha direita que aparecia sempre que ele estava nervoso, mas fingia que não estava. Um cowboy tentando parecer tranquilo é uma das criaturas mais engraçadas da fauna humana.
— Ei… — ela chamou baixinho, tocando o ombro dele. — Acorda, papai.
Ele abriu um olho. Só um. Como se o outro ainda estivesse negociando com o sono. Depois abriu o segundo e o sorriso veio, preguiçoso, lindo, quente.
— Já é hoje?
— É. — ela respondeu, com um sorriso trêmulo. — Hoje a gente vai ouvir o coração do nosso bebê.
Taylor respirou fundo como quem tenta guardar um momento dentro de uma caixa de memória com etiqueta: Coisas Que Mudaram Minha Vida. Ele se sentou, passou o braço ao redor da cintura dela e a puxou para perto, beijando o topo da cabeça.
— Então vamos descobrir se o destino prefere laços ou carrinhos.
Lila riu, mas o riso tinha nervosismo misturado.
Se fosse só um bebê, ela já estava surtando. E ela nem imaginava.
Na cozinha, Catarina já estava vivendo o equivalente emocional a um terremoto de 9 pontos na escala Richter.
Ela vestia uma camisa de botões meio amassada, uma saia jeans claramente colocada às pressas e a cereja do desastre, sandálias trocadas: pé esquerdo no direito e vice-versa.
— Eu mal dormi! — ela confessou enquanto mexia o café tão rápido que quase criava um furacão no bule. — Já preparei três playlists pelo caminho! Uma emocionante, uma animada e uma se der tudo errado e eu precisar levantar o astral!
— Catarina — Lila tentou segurar a risada enquanto abraçava uma caneca — você tá mais nervosa do que a gente.
— Obviamente! — retrucou a cunhada, apontando um dedo dramático. — Hoje eu descubro se vou comprar roupinhas rosas… ou azuis… ou as duas, porque sinceramente eu também não me decidi!
Maria apareceu com o pano de prato no ombro, os olhos marejados.
— E eu preciso começar a bordar a manta! — anunciou com a emoção de quem está prestes a entrar no Vaticano e ouvir o Papa dizer “parabéns, minha filha”.
Taylor entrou na cozinha bocejando, e Catarina girou o celular na direção dele.
— Papai, entrevista rápida! Expectativas para o grande dia?
Ele piscou, confuso.
— Catarina, se você postar isso…
— Eu vou postar — ela respondeu. — A internet merece acompanhar essa fofura.
Taylor revirou os olhos, mas o sorriso entregou a verdade: ele adorava aquela confusão.
O caminho até a clínica foi tomado pelo tipo de silêncio que não é desconforto, é gravidade emocional.
Taylor dirigia com uma mão e segurava a mão de Lila com a outra. O polegar dele fazia movimentos circulares na pele dela, como se quisesse acalmar um nervo de cada vez.
No banco traseiro, Catarina filmava tudo com a empolgação de quem está produzindo um documentário de Hollywood.
— Registro histórico: Lila tentando respirar, Taylor fingindo que está muito macho pra admitir que está branco como um fantasma, e eu, a tia mais incrível da história, mantendo todo mundo estável.
Taylor bufou.
— Ela vai postar isso.
— ÓBVIO que vou.
Na clínica, o silêncio era quase sagrado. Um templo moderno onde milagres acontecem todos os dias.
Lila se deitou na maca. Taylor ficou ao lado, segurando a mão dela com força. Força demais para alguém que dizia estar tranquilo. Catarina ajeitou o celular como quem ajusta uma câmera profissional, posicionando-se estrategicamente.
A médica, tranquila e experiente, sorriu atrás da máscara.
— Vamos ver como está esse pequeno milagre, mamãe.
O gel gelado tocou a barriga de Lila e ela se arrepiou e Taylor também. Por empatia, por nervosismo, ou porque ele imitava tudo o que Lila fazia, nunca saberemos.
Então veio o som.
Aquele som.
TUM-TUM
TUM-TUM
TUM-TUM
Uma batida firme, rápida, viva.
O coração dela quase saiu pela boca.
E então…
Outro som surgiu.
Outro tum-tum.
Parecido, mas diferente.
Taylor franziu a sobrancelha.
— Arriégua … pera aí… esse eco tá estranho.
A médica virou o monitor para eles e sorriu com a calma de quem está prestes a soltar uma bomba e sabe que a explosão vai ser bonita.
— Parabéns, papai e mamãe… São gêmeos.
Silêncio.
Sacada de ar.
Zona de choque instaurada.
Taylor arregalou os olhos.
— Gê… o quê? GÊ… MESMOS?

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