Naquele momento, pensei novamente em Fernando Gomes.
Achei que, se ele estivesse ali, certamente encontraria uma solução para tudo, disso eu tinha certeza.
Se o destino fosse mesmo a morte, que assim fosse. Imaginei que, ao menos, entre nós dois, nada mais restaria a ser cobrado.
Numa próxima vida, não nos veríamos, nem guardaríamos lembranças; seríamos apenas estranhos um para o outro.
O carro estava completamente amassado, e a perna de Víctor Laranjeira ficou presa. Eu já não era forte o bastante e, tomada pelo medo e pelo pânico, minhas mãos e pernas tremiam, tornando impossível qualquer esforço. Por mais que tentasse, mordi meus lábios até sangrar, mas a perna de Víctor continuava presa, imóvel.
O suor escorria pela minha testa, as lágrimas corriam desordenadas pelo rosto. Em desespero, dei um tapa no próprio rosto, culpando-me por não ser capaz de ajudar.
A voz de Víctor Laranjeira soou abafada, vinda de dentro do casaco:
— Francisca, não se preocupe comigo, fuja logo... Francisca, não tente me salvar, eu não mereço... Francisca, seja obediente, por favor, não olhe para trás. Uma pessoa como eu já tem o que merece... Francisca...
A cada vez que ele pronunciava meu nome, meu coração se apertava ainda mais.
Aquela dor era como se arrancassem minha pele e meus nervos, profunda e aguda, atingindo até os ossos.
— Cale a boca e tente colaborar, ao invés de ficar aí parado como se já estivesse morto! Não tenho força suficiente. Melhor mal e vivo do que morto de vez. Se você morrer, e a Kelly? O que vai ser dela? E quem vai cuidar do túmulo da Juliana Silva na próxima visita ao cemitério? E seus seguranças, onde estão todos agora? Justo na hora em que mais precisa, sumiram!
No fim, minha voz falhou, e já não consegui dizer mais nada, apenas continuei, mecanicamente, a tentar puxá-lo.

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