Finalmente chegou a minha vez. Sentei-me animada no trenó e, ao meu lado, estava um rapaz alto, com um sorriso tímido, não devia ter mais que vinte e um ou vinte e dois anos, o rosto ainda guardava traços de juventude.
Fernando Gomes tentou se aproximar, mexendo os pés com ansiedade, mas infelizmente chegou tarde demais. Não havia mais lugar, restando-lhe apenas esperar pela próxima rodada.
O rosto dele, já avermelhado e levemente azulado, ganhou agora um tom ainda mais escuro, quase negro de raiva.
O trenó deslizava velozmente, a sensação era eletrizante. Fui e voltei várias vezes, a felicidade era tamanha que acabei me esquecendo por completo da expressão cada vez mais fechada de Fernando Gomes.
Imitei as crianças mais jovens, agitava os braços no ar, gritava de alegria, gargalhava alto sem me importar se alguém respondia ou não — o importante era estar feliz.
De repente, não sei em que momento, vários trenós colidiram ao mesmo tempo. Cerca de uma dúzia de pessoas caíram juntas, num amontoado de corpos — uns sobre os outros, enrolados, gritos estridentes misturando-se a risadas que ecoavam longe.
Claro, houve também quem se machucasse de verdade, soltando gemidos e gritos de dor.
Infelizmente, fui parar na base da pilha. A escuridão repentina e o tumulto de vozes me trouxeram à mente uma cena de dez anos atrás, fazendo-me sentir como se estivesse à beira do abismo.
Tentei gritar por socorro, mas as vozes acima abafaram meus chamados.
Tentei me mexer para escapar, mas estava completamente imobilizada, sem conseguir mover um músculo sequer.
O pânico tomou conta dos meus sentidos. Senti falta de ar, estrelas douradas dançavam diante dos meus olhos, os membros frios e rígidos.
Em meio a todo aquele caos, ouvi nitidamente o som do meu próprio coração batendo. As pessoas acima se debatiam, todo o peso recaía sobre mim, meu peito parecia prestes a explodir, a respiração ficava cada vez mais difícil, as luzes tremulavam diante dos meus olhos, a garganta estava tomada por um gosto salgado.
Da última vez, havia alguém para me salvar, e meus pais me esperavam do lado de fora. Apesar do medo, havia esperança.
Agora, não havia nada. “Vou morrer assim?” Esse pensamento tomou conta de toda a minha mente, seguido por uma onda avassaladora de desespero.
Uma dor lancinante atravessou meu tornozelo direito, os ouvidos zumbiam como se mil abelhas batessem asas lá dentro. Era como se uma mão de ferro apertasse meu coração, o sangue deixou de circular, a respiração começou a falhar, o mundo parecia se afastar, os sons das pessoas se tornavam cada vez mais distantes.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento de Mentira, Amor de Verdade