— O que ele está falando?
— Ele está falando de... abdômen definido?
— Essa pessoa só pode estar com algum problema, não é possível que até isso ele queira discutir.
Apertei o cordão da minha jaqueta de inverno, tentando segurar o frio, e dei dois passos para o lado, me afastando do centro do furacão chamado Fernando Gomes. Por dentro, fiz uma careta de desprezo e disse, um tanto impaciente:
— E de que adianta ser bonito? Você teria coragem de mostrar aqui, para todo mundo ver? Tem coragem? Se acha mesmo tão bom, então tire a camisa, fique igual ao rapaz ali, e deixe todas essas senhoras julgarem quem ganha. Se receber mais votos, você vence. Tem coragem? Tem? Se não tem, então pare de falar besteira.
Minha sequência de perguntas fez o rosto de Fernando Gomes mudar completamente de cor. Ele respirava fundo, o peito subia e descia de forma visível, mesmo com o casaco grosso.
Eu sabia, ele estava realmente irritado.
Não era uma questão de coragem, mas de possibilidade.
Como herdeiro do Grupo Gomes, figurinha carimbada nas revistas de economia e nas entrevistas, por mais perfeito que fosse o corpo, ele jamais poderia, em pleno público, tirar a roupa e exibir o abdômen para um monte de desconhecidas vestidas. Se isso saísse na mídia, até as ações da empresa poderiam ser afetadas.
Mesmo que ele resolvesse ignorar o olhar dos outros, só a temperatura de vinte e sete graus negativos já bastava para desanimar qualquer um.
Fernando Gomes estava nitidamente furioso. Em seus olhos encantadores, uma tempestade se formava. Ele levantou um canto dos lábios e provocou:
— Não sabia que a Diretora Francisca tinha esse tipo de gosto. Gosta de admirar homens, é?
Esse cara só pode estar de brincadeira.
A cada hora me chama de um jeito diferente, e ainda espera que eu acompanhe todas as mudanças.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casamento de Mentira, Amor de Verdade