Não quero mais viver, deixe-me “morrer” um pouco!
Queria tanto enlouquecer!
Levantei os olhos, espiando-o em segredo, e percebi que ele também me olhava, com um ar de deboche. Seu olhar era límpido como a água, mas cheio de profundidade.
Só com aquele olhar, senti minhas orelhas queimarem como se estivessem em chamas. Rapidamente, levei uma colherada de canja à boca, tentando disfarçar o constrangimento.
Ainda bem que a coxinha caiu, senão, continuar comendo ou parar só tornaria tudo ainda mais embaraçoso.
Fingir que nada aconteceu era, no momento, a melhor solução.
Mas Fernando Gomes, como se jogasse gasolina na fogueira do meu embaraço, tornou impossível não me sentir envergonhada:
— Realmente, tem um sabor melhor que o meu. Qual será o motivo?
Talvez seja só por pura teimosia.
Aquela colherada de canja ficou presa na minha garganta, lutando para não ser engolida nem cuspida, enquanto o ar que subia do meu peito, provocado pela frase, quase me sufocou. Tossi tanto, que parecia que meus pulmões iam se despedaçar. As lágrimas embaralhavam minha visão, e achei que ia morrer ali mesmo.
Decidi que precisava registrar esse momento depois, com o título: “O desastre causado por uma coxinha”.
E, então, consultar esse registro três vezes ao dia, para reflexão.
Depois disso, escolheria algum favor não muito grande para riscar da lista de dívidas de gratidão.
Vendo que minha tosse era realmente grave, e não fingida, Fernando Gomes ficou sério. Puxou algumas folhas de papel, me entregou, levantou-se para vir até mim e bateu levemente nas minhas costas para ajudar a aliviar. Mas, mesmo assim, não perdeu a oportunidade de soltar outra provocação:
— Foi só uma brincadeira, não precisa levar a sério. Além do mais, foi você quem quis me dar de comer. Não fiz questão de provar sua coxinha. Só uma mordida, não precisava sofrer tanto.
Eu: ... Sofrer por causa de uma coxinha?

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