Naquele momento, senti meu peito amolecer, como se estivesse mergulhada em confusão.
Mamãe disse tantas vezes que eu era uma pessoa apegada ao passado, de coração sensível, e sempre insistia para que eu aprendesse a ser forte, do contrário, sofreria quando crescesse.
Mesmo adulta, Francisca Lobato continuava a mesma: o coração ainda delicado — e, de fato, ferido.
As lágrimas, teimosas, caíram sem que eu pudesse impedir, perturbando aquele feixe de luz. Num leve tremor, o tempo de infância em que eu sorria montada no carrossel se dissipou, dando lugar à fábrica diante de mim.
— Deixe-me compensar meu erro: que tal receber esta fábrica de presente? Você pode me perdoar assim? — A voz de Fernando Gomes era grave e envolvente, com um timbre tão profundo que parecia vir de outro mundo.
Enxuguei as lágrimas dos olhos e forcei um sorriso.
— Basta comprar uns doces pra mim de vez em quando, já está ótimo. Uma fábrica é valiosa demais, não posso aceitar.
— Então você pretende nunca me perdoar? Vai me deixar viver para sempre sob a sombra da culpa? Francisca, minha querida amiga, só porque tomei uma decisão no seu lugar — e não foi das melhores — isso já é tão imperdoável assim?
— Não é isso, Fernando, não quis dizer nada parecido... É que não é tão grave assim. Além do mais, já sou adulta. Nem dou conta de comer tantos doces — só preciso de um de vez em quando, que seja doce por dentro e por fora.
— Então aceite, ou vou achar que você não me perdoou. E vou me culpar para sempre. Minha doce amiga Francisca é tão generosa, não vai querer que eu viva o resto da vida corroído pelo remorso, certo?
Fernando Gomes me olhava com sinceridade, as mãos firmes em meus ombros, esperando minha resposta. Em seus olhos encantadores, havia um brilho de brincadeira.
Tudo isso por uma coisa tão simples — parecia algo muito mais sério do que era.
Que amigo dramático eu tinha.

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