Desta vez, não foram apenas aqueles tios e tias distantes do Fernando Gomes que mudaram de expressão—até os próprios pais dele olharam para mim de forma diferente, com um olhar muito mais profundo.
Principalmente a mãe do Fernando, que deixou seus olhos percorrerem meu rosto várias vezes, como se estivesse tentando ter certeza de algo.
Ficou claro para mim: ela não queria que eu aceitasse aquela joia de família, mas também sabia exatamente qual era seu papel. Diante de tantas vozes contrárias e olhares de desaprovação, ela escolheu o silêncio.
Fiquei apavorada. Aquilo não passava de uma peça de valor simbólico, algo para acompanhar uma refeição especial e pronto. Eu definitivamente não tinha estrutura para receber um objeto de tanto valor.
— Não, vovô Gomes, eu sou ainda jovem; temo não estar à altura de tamanha responsabilidade.
Essa joia de família não era apenas um objeto passado ao filho mais velho ou à nora principal. O mais importante era seu simbolismo: representar quem, entre os Gomes, seria o próximo a liderar a família.
Em outras palavras, o casal que detivesse aquele objeto se tornaria, sem dúvidas, os chefes da família Gomes.
Diante de todos, se eu aceitasse ali, isso equivaleria a assumir publicamente meu papel como a matriarca dos Gomes, dividindo o comando com Fernando—sem espaço para questionamentos.
Era mesmo uma família tradicional, cheia de nuances e rivalidades. Até eu, uma recém-chegada, já fazia parte desse jogo de influências.
Representando os demais, especialmente o terceiro tio e a terceira tia, alguém logo questionou:
— Pai, o senhor vai mesmo entregar a família Gomes para uma jovem de origem tão humilde, sem qualquer base? Não teme que algum azar dela recaia sobre todos nós? Nós, como seus filhos de sangue, por mais que seja, ainda somos de sua carne e osso. Isso é algo muito sério, pai. Pense bem.

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