Minha mãe sempre dizia, quando eu era pequena, que eu era uma criança de pensamentos simples, fácil de decifrar. Bastava olhar para o meu rosto e para os meus olhos para saber o que se passava dentro de mim.
Deve ter sido porque meus pensamentos estavam tão evidentes no meu rosto agora há pouco, que Fernando Gomes percebeu tudo.
Ao lembrar da fantasia em que eu, de uma só vez, contratava dez rapazes sarados, mordi o lábio de vergonha e, mais uma vez, pensei em desistir.
— Não se preocupe, as pessoas de quem gosto são todas muito fáceis de lidar. Francisca, você ficou tão fofa agora há pouco, igualzinha a dez anos atrás.
Igual a dez anos atrás!
Ele já tinha me visto há dez anos?
A sensação de familiaridade era forte, mas eu realmente não lembrava onde ou quando nos encontramos antes.
— Chefe, nós...
A pergunta morreu nos meus lábios quando as portas duplas da sala principal se abriram. Uma menininha, que não devia ter mais de oito ou nove anos, apareceu, espiando o quintal. Seus olhos brilharam ao nos ver, e ela correu de volta animada, gritando:
— Vovô, papai, mamãe, o titio chegou com a namorada!
A palavra "namorada" fez meu rosto arder num rubor intenso.
Era só participação especial, pensei que conseguiria encarar com naturalidade.
Mas, na hora H, realmente fiquei sem jeito.
Ser o centro das atenções de mais de vinte pessoas era como estar cercada em um zoológico.
Pena que, agora, nem adiantava querer fugir. Era tarde demais.
Ai, não devia ter sido tão ambiciosa.
De repente, senti uma mão grande segurando a minha:
— Não se preocupe, eu cuido de tudo.
Só me restava confiar.

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