Fernando Gomes saiu vestindo um terno sob medida impecável, com olhos encantadores e traços tão marcantes que tornavam sua presença impossível de ignorar.
Olhei, surpresa, por trás dele, procurando o menor sinal de Marina Batista. Sem encontrá-la, perguntei, intrigada:
— Chefe, o que faz aqui?
— Se não estivesse aqui, onde deveria estar? — replicou ele, com aquela frieza cortante.
— A casa não foi reformada já?
Ele arqueou as sobrancelhas, voltando àquele tom ácido e cortante que o caracterizava:
— Foi a Diretora Francisca quem terminou a reforma pra mim?
— Mas eu vi a Srta. Batista...
— Hum, a Srta. Batista é quem te paga o salário, para você se preocupar tanto com ela? Nem tudo que parece, é. Você é adulta, Diretora Francisca, deveria entender coisas tão básicas.
— Não é bem assim...
— Hum, o que não é? O seu “não”, ou o meu? Ou será que você gostaria de ver a tal Srta. Batista na minha casa?
— Não, não é isso...
— Não o quê? Não deseja, ou não deixa de desejar? Diga, Diretora Francisca, o que anda pensando?
Na verdade, pensei comigo mesma que talvez devesse ter colocado um pouco de boldo na canja de ontem à noite, assim ele teria que se ocupar com outros “desconfortos” e não teria tempo para lançar veneno com a língua.
— Ou será que você, Diretora Francisca, lamenta que a Srta. Batista não esteja aqui?
— Não, não lamento. Nem um pouco. Melhor ainda que ela não esteja aqui. Sinceramente, melhor assim.
Me perdoe, eu errei.
Fui imprudente.
Fico aqui, fazendo minha autocrítica.
Logo cedo, e eu já arrumando problema para mim mesma. Realmente, deve ser algum tipo de doença.
E esse chefe... Ontem à noite ainda me mandou uma mensagem de agradecimento, e agora, depois de uma noite, já vira o rosto como se nada tivesse acontecido! Que tipo de pessoa é essa?
Como ontem voltei para casa a pé, naturalmente planejei ir caminhando para a empresa nesta manhã.



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