Eu não era uma pessoa de fazer piada. Diante daquele tipo de provocação, eu realmente não sabia como reagir, só consegui fechar a cara, segurar ela pela gola e jogá-la pra fora.
Cerca de dez minutos depois, Fernando Gomes me mandou uma mensagem: “A canja está deliciosa, cremosa na medida certa, tempero perfeito. Obrigado, Diretora Francisca. Um favor assim nem precisa de palavras.”
Foi só então que percebi, como se estivesse acordando de um sonho: Fernando Gomes não era aquele que estava pálido, com cara de dor de estômago, quase desmaiando, sem conseguir nem ficar de pé?
Como foi que ele conseguiu me salvar, afinal?
Será que, só pra comer uma canja feita por mim, ele foi capaz de fingir estar doente?
Justamente quando estava remoendo isso de raiva, Marina Batista apareceu.
De certa forma, Marina Batista e Fernando Gomes até combinavam.
Ela nem bateu na porta, entrou como se fosse a própria casa dela, sem cerimônia nenhuma.
Naquele momento, ela estava abatida, sem nenhum traço daquela fera que mordeu o Lion. Os olhos grandes, um pouco vermelhos, como se tivesse chorado. Se jogou no sofá e puxou pra si um boneco que nem sei desde quando estava ali, torcendo as orelhas com força.
— Srta. Batista, o que faz aqui? Veio especialmente pra me ver? Desculpe, talvez eu precise trabalhar até mais tarde, não vou poder lhe fazer companhia — adiantei-me, tentando tomar a iniciativa.
Era medo, na verdade, de que ela começasse a falar primeiro e dissesse algo que me deixasse sem chão.
Por isso, nunca se deve se entregar totalmente a uma preocupação, senão a qualquer momento ela pode vir à tona.
Marina Batista levantou a mão e jogou o boneco deformado no sofá, pulando em seguida pra me abraçar pelo pescoço, sem querer soltar.
O rosto delicado encostou no meu pescoço e senti uma umidade quente.
A menina estava chorando!


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