— O médico disse que você já superou o período mais crítico. O que gostaria de comer? Posso sair e comprar pra você. Depois do café da manhã, vou contratar um bom cuidador pra cuidar de você.
— Está bem, obrigado. — respondeu Víctor Laranjeira com a voz rouca.
Ele não insistiu nem um pouco, o que me surpreendeu.
Achei que teria que perder horas argumentando.
Na época do divórcio foi igual. Contratei o Dr. Erick, o advogado mais afiado que existe, e imaginei que o tribunal seria um campo de batalha, mas Víctor Laranjeira simplesmente desistiu, sem resistência.
Não sei o que o fez mudar, parar de insistir. Pra mim, foi um alívio.
Sem querer, nós dois olhamos para fora da janela.
Do décimo terceiro andar, eu sentada e ele deitado — éramos quase do mesmo nível. Exceto pelo céu azul e algumas nuvens brancas, não dava pra ver mais nada.
Como tudo entre nós: transparente, sem esconderijos.
Vi lágrimas nos cantos dos olhos dele. Levantei para buscar o café da manhã:
— Talvez eu não encontre canja de feijão vermelho, mas posso comprar de frutos do mar, serve?
Víctor Laranjeira virou-se para responder, mas antes que dissesse algo, alguém bateu duas vezes na porta aberta. Uma voz elegante e fria anunciou-se:
— Não precisa, já providenciei o café da manhã.
Fernando Gomes estava de pé junto à porta, imponente e cheio de presença. Seus olhos encantadores eram profundos como um lago gelado, o rosto parecia esculpido à mão por algum artista divino.
— Senhor, o que faz aqui? E ainda trouxe café da manhã, que gentileza.
Fiquei pasma, mas Víctor Laranjeira ficou apenas mais sério.
Fernando Gomes lançou-me um olhar frio, afastou-se para deixar passar um rapaz que carregava uma caixa de comida para dentro do quarto.
— Se os funcionários podem ajudar uns aos outros, como presidente da empresa, não posso ficar atrás.
Ele falava bonito, sobre solidariedade!



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