Fernando Gomes puxou os lábios num sorriso que não chegava aos olhos, onde se via apenas desprezo e insatisfação.
— Diretora Francisca é realmente uma pessoa rara, sempre tão generosa com o ex-marido, como uma brisa suave de primavera.
Que comentário!
Como se eu fizesse isso de toda boa vontade.
— Senhor, pode voltar para casa, obrigada por hoje. Prometo que, numa próxima vez, vou agradecer como merece.
Ele parecia alguém cujas palavras nunca vinham por inteiro, impossível conversar normalmente. Melhor que fosse embora logo, já estava me dando trabalho suficiente. Não precisava complicar ainda mais as coisas.
Sem dizer mais nada, ele foi até a porta do quarto e, em voz baixa, passou algumas instruções ao segurança que aguardava do lado de fora antes de sair.
Assim que sua silhueta desapareceu, um segurança forte, de terno preto, entrou no quarto. Não esperou convite, sentou-se num dos sofás, silencioso, quase imóvel, com os olhos arregalados como faróis, captando cada detalhe do ambiente.
Já era difícil dividir o espaço com Víctor Laranjeira, agora, com mais um segurança ali, não havia palavras para expressar meu desconforto.
A enfermeira entrava a cada meia hora e, todas as vezes, empalidecia ao ver o segurança, que mais parecia uma muralha humana.
Pelo menos Víctor Laranjeira demonstrou forte vontade de viver: em duas horas, nenhum sintoma preocupante apareceu e ele superou a fase mais crítica.
O relógio já marcava duas da manhã. Eu estava exausta, pálpebras pesadas lutando para se manterem abertas, até que acabei cochilando apoiada na beirada da cama.
Acordei de manhã com o corpo todo dolorido, músculos tensos, pescoço e coluna rígidos pela má posição.
Sentia ainda aquele inconfundível olhar sobre mim.
Levantei a cabeça.
Víctor Laranjeira havia acordado em algum momento e me observava, o olhar suave como um riacho calmo. A mão direita pairava no ar, desenhando, sem tocar, o contorno das minhas sobrancelhas e olhos.


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