Eu não lhe respondi, apenas soltei um leve suspiro.
Certo ou errado, arrependido ou não, de que adiantaria agora?
Nenhum de nós tem mais caminho de volta.
— Fui eu quem a mimou, quem a amou, e também fui eu quem a fez morrer de forma tão triste. Achei que tinha te dado o melhor amor, mas acabei sendo quem mais te feriu. Francisca, nesses dias pensei muito… Talvez, a raiz de todos esses erros seja o fato de eu nunca ter devir ter vindo ao mundo. Minha vinda foi o maior erro de todos.
Naquele ano, eu tinha sete anos. Ele voltou só para pegar dinheiro, sequer olhou para mim e minha mãe. Mamãe, chorando, preparou um jantar com remédio misturado, dizendo que nos levaria embora juntos. O caseiro nos salvou. Quando acordei no hospital, me lembro perfeitamente do pensamento: teria sido melhor morrer de verdade.
Assim, eu não teria que ver mamãe chorando noite e dia, nem apanhar até ficar coberto de marcas, nem ouvir as palavras cruéis dela quando ele não voltava para casa. Sabe, Francisca, às vezes viver é mesmo mais difícil do que morrer. Ser filho deles foi a maior tristeza da minha vida.
Pensando bem, o que ele dizia fazia sentido.
Mas, se ele pudesse prever tudo isso, se tivesse o poder de escolher nascer ou não, provavelmente também não teria escolhido vir ao mundo.
— Não pense mais nisso. — Dei um tapinha no ombro de Víctor Laranjeira.
O último desejo de Serena Cruz era voltar para casa. Quando tudo terminasse, eu levaria sua urna, e daria um jeito de entregá-la à família Batista.
O que restava dela neste mundo era apenas uma Kelly.
Afinal, as pessoas chegam ao mundo chorando alto, mas partem em silêncio.
O tempo passava devagar. Eu olhava a fumaça negra saindo da alta chaminé, e chorava, acompanhando Serena Cruz em sua última viagem.


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