— Você estudou filosofia, irmã? Fala com tanta sabedoria de vida, fico até admirada. Mas por que ele ainda não voltou pra casa? Até fico com medo de rir alto, tenho que ficar com uma cara séria e fria, parece até que estou num velório, dá até medo.
Marina Batista me olhava com admiração, os olhos brilhando como pequenas estrelas cor-de-rosa.
As palavras dela me fizeram lembrar, sem querer, de Serena Cruz.
A vida dela terminou por conta de uma escolha errada. Será que, antes de morrer, ela se arrependeu?
Ela tinha só vinte e nove anos. Tão jovem, foi uma pena.
Nos últimos anos, vivi mortes demais.
Primeiro meu pai, depois minha mãe, agora Serena Cruz. No futuro, ainda haveria Víctor Laranjeira e Kelly.
Por que a vida tem que ser feita de tantas despedidas?
— O que foi, irmã? Os olhos ficaram cheios d’água.
Enxuguei os olhos úmidos e forcei um sorriso. — Nada, só entrou um cisco. Já reservou hotel? Quer que eu te leve? Ou prefere passar a noite aqui? Só que amanhã cedo vou a um funeral de uma amiga que partiu, então teria que acordar cedo.
— Eu posso acordar cedo, nunca fui a um funeral popular, me leva junto? Ah, sua amiga era jovem, não? Por que morreu tão cedo, foi doença ou acidente?
Guardei os pratos limpos no armário, baixei os olhos, pensei um pouco e respondi suavemente:
— O nome dela era Serena Cruz, tinha vinte e nove anos, morreu de uma doença grave.
O rosto de Marina Batista ficou pálido de repente, os olhos amendoados cheios de lágrimas. Ela murmurou, bem baixinho:
— Serena Cruz? Serena? Como assim morreu? Não pode ser...
Coloquei a mão em seu ombro e a conduzi para fora da cozinha.
— Não queria ir comigo? Então fica aqui esta noite.


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