A primeira entrada do diário foi escrita no dia em que meu pai faleceu. Minha mãe insistiu em escrever uma página por dia durante três anos e meio.
— Cassio, por que você se foi assim? Havíamos combinado de passar a vida inteira juntos. Eu sei, você lutou até o fim, mas o destino não está em nossas mãos. Pode ir em paz, meu querido, eu vou cuidar bem de mim e da nossa filha. Trabalhe bastante aí onde está, ganhe bastante dinheiro. Quando eu e nossa filha formos ao seu encontro, nós três vamos viver de novo aqueles dias felizes.
— Cassio, nossa filha veio nos visitar. Os olhos dela estavam vermelhos e inchados, e ela está mais magra, com olheiras profundas, claramente exausta e abalada. Pena que ela sempre guarda as tristezas para si, nunca quer preocupar ninguém. Já que ela não fala, também não pergunto, para não deixá-la desconfortável. No jantar, preparei os pratos favoritos dela: costelinha agridoce e peixe amarelo ao molho, além do seu querido refogado de broto de bambu. Ela comeu com tanto gosto...
— Meu querido, adoeci. Tive um AVC e fiquei internada por dez dias. O médico disse que é um caso grave e há grande chance de acontecer de novo. Se voltar, pode ser fatal. Cassio, você se foi, e se um dia eu também partir, como nossa filha vai ficar sozinha neste mundo? Só de pensar, meu coração dói demais.
— Desmaiei novamente em casa. Se não fosse uma colega ter vindo conversar, talvez nunca mais tivesse aberto os olhos. Não contei para nossa filha, não suporto vê-la chorar. Cassio, talvez em breve eu vá para o seu lado. Deixei todos os bens da casa no nome da nossa filha. A vida não é fácil, e Víctor Laranjeira não é alguém em quem se possa confiar. Contanto que ela tenha dinheiro, vai poder viver bem. Se ela estiver bem, nós dois poderemos descansar em paz.
— Cassio, esses dias tenho sonhado muito com o início do nosso casamento. Também tenho me sentido cada vez pior. Acho que está chegando a hora de ir te encontrar. Vou lutar para me tratar, tentar viver mais um pouco, senão nossa filha vai ficar completamente sozinha neste mundo, e isso parte meu coração.
A última página foi escrita na véspera da morte da minha mãe.
Cada linha transborda o profundo amor dela por mim.
Ao abrir o álbum de fotos, os rostos sorridentes dos meus pais surgiram diante dos meus olhos, e as lágrimas vieram de repente. Abracei o álbum e chorei em silêncio, tomada pela dor.
Não sei por quanto tempo chorei. Minha voz estava rouca e minha pele ardia, machucada pelas lágrimas.
Cambaleante, fui ao banheiro, lavei o rosto e peguei o pano que minha mãe costumava usar, limpando cada canto da casa até deixá-la impecável.
Ao sair, tranquei a porta, sentei-me no carro e, tomada por uma dor impossível de esquecer, inclinei-me sobre o volante e chorei de novo, sem conseguir me controlar.

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