— Os remédios que eu prescrevi estão quase acabando. Desse jeito não dá. Ele não pode simplesmente continuar destruindo a própria saúde só por não ter uma doença terminal.
Júlia ficou em silêncio por alguns segundos.
— Foi o Sérgio quem pediu para você ligar?
— Ah?
O Dr. Mendes ficou sem reação.
A verdade é que não.
A culpa era toda de Sérgio, que com a sua costumeira falta de honestidade havia deixado todo mundo na defensiva.
— Não foi o Diretor Santana quem me mandou ligar. Fiquei sabendo pelo Éder que ele pegou um grande projeto recentemente e insiste em conduzi-lo pessoalmente. Veja só, eu já liguei várias vezes para ele e só dá na caixa postal.
Júlia respirou fundo.
— Entendi.
Ela encerrou a chamada.
Júlia sentia-se como alguém que ouviu a história de "o lobo está chegando" vezes demais.
Nunca saía uma única verdade da boca de Sérgio; ela não sabia se deveria acreditar.
— Mamãe, olhe!
— Eu fiz um alimentador de coelho, não ficou legal?
— Você pode apertar os dentões do coelhinho.
Júlia apertou, seguindo as instruções da menina.
"Clac".
A boca do coelho se fechou e, ao se abrir novamente, liberou dois grânulos de alfafa.
— Eu fiz dois.
— Um para o coelhinho e um para a mamãe, mas o da mamãe tem a bala de leite que a Dora mais gosta!
Júlia ficou genuinamente surpresa.
Jamais imaginara que uma atividade de carpintaria infantil não só envolvia pintar a madeira, como também contava com um pequeno mecanismo interno.
— Que maravilhosa que você é, minha querida.
Dora soltou uma risadinha sapeca.
— Pena que a professora disse que cada criança só podia pegar um kit de montagem e um kit reserva, então não tenho como dar um para o papai.
Quando ouviu a filha mencionar Sérgio, os olhos de Júlia ganharam um leve brilho.

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